13
Abr 09

 

 

Bule bule bule bule bule bule bule

a palavra parece a água a borbulhar

bule bule bule bule bule bule bule

a água a ferver.

Bule bule bule___o bule aquece o bule bule

deita-se o chá e o bule bule bule bule

bule bule bule vezes sete deita-se a água

bule bule bule bule a água a ferver

bule bule bule ____ o bule serve o chá.

Beber ____ é matar _____a sede.

Bule bule bule bule bule bule bule

Beber ____ é o acto sagrado_____de matar

a sede. Bule bule bule bule o bule é o receptáculo

escuro _____________________da morte.

Bule bule bule bule ______o bule é o tabernáculo.

O bule não é o copo _______bule bule bule bule

o copo é o receptáculo claro _____________da morte

da sede._Mas o bule é divino_____________e raro.

Escuro ______o bule

bule bule ____ o chá é divino e puro.

Sabedoria. Bule bule bule bule bule

Faço a cerimónia do chá cinco vezes por dia.

O bule está quente.

O bule está morno.

O bule está frio.______Sophia!

As mãos acompanham em concha

o bojudo do bule companheiro… bule bule

bule bule bule __todo o dia.

As tisanas são assunto ____da Ana

Hatherly.

Bule bule bule bule bule bule bule

com asa e bico bule bule bule bule

o bule é a ave do espírito _______santo

em si.

Garça_pato_cisne_cegonha_avestruz

conforme o bule o pescoço varia

e produz bule bule bule bule

uma chávena de Universo

inteiro.

O bule é o sacrário________por isso

Beber chá é beber ___ a noite e o dia

é sorver bule bule ___ o enigma primeiro.

O bule cheio bule ____é o ventre relicário

do chá ____bule ____ meu néctar

verdadeiro bule bule bule bule claro

meu alimento bule bule bule __caro.

Bule bule bule bule bule bule bule.

_______________BULE.

  

Salette Tavares

in Poesia Gráfica

Lisboa

Casa Fernando Pessoa

 

 

Se gostou deste post, considere subscrever o nosso feed completo.

Ou entao subscreva a Casa dos Poetas por Email!

postado pelo Casa dos Poetas às 00:53
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

11
Abr 09

ESTRADA NACIONAL

 

Lixo na berma da estrada

são as flores venenosas

da civilização

 

Um dia voltarás

 

Os painéis publicitários

terão caído de podres

as placas estarão cobertas

de hera

as raízes das árvores estilhaçam

o asfalto

o ruído dos motores

substituído pelo silêncio

 

É esta a revolução

a que não poderás faltar

 

 

PARAÍSO PERDIDO

 

Quando estás no deserto

vê as estrelas que estão

poisadas na linha do horizonte

 

Não precisas de levantar a cabeça

para olhá-las de frente

 

 

Manuel Silva-Terra

in O que sobra

Casa do Sul

 

 

 

Se gostou deste post, considere subscrever o nosso feed completo.

Ou entao subscreva a Casa dos Poetas por Email!

postado pelo Casa dos Poetas às 02:29
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

10
Abr 09

Klompen/ Socos: tamancos, chinelas de pau, tb. acto de toque fisico, agressivo, da /tua, minha/ mao na / minha, tua/ face

 

Klompen

 

Gostava de te dizer como são os meus passos que me afastam de ti.

Como não vivo para ti, nem escrevo para ti.

 

Como não penso no meu amor, nem te amo em pensamento.

 

Como não te vejo nos lugares onde nunca estivemos juntos.

 

Como tu não me pisas quando me obrigas a seguir os teus passos,

ou como não me calcas quando descalças os pés às leonores

que bebem da tua fonte.

 

Como caminho firme e confiante pelos prados holandeses, entre as vacas e a lama,

e me afasto cada vez mais de ti.

 

Como os meus passos se afastam dos teus passos, correndo para longe, longe,

esperando que o mundo seja realmente redondo, e não plano,

e possa, um dia, chegar às tuas costas, tapar os teus olhos e dizer-te

mijn thuisland is niet meer mijn taal.

 

 

Socos

 

Ik wilde je zeggen hoe mijn stappen zijn die mij van je verwijderen.

 

Hoe ik niet leef voor jou, niet eens schrijf voor jou.

 

Hoe ik niet denk aan mijn liefde en je evenmin bemin in gedachten.

 

Hoe ik je niet zie op de plaatsen waar we nooit samen waren.

 

Hoe je me niet vertrapt wanneer je me dwingt je stappen te volgen,

of hoe je me niet plet wanneer je de schoenen uittrekt

van de leonoors die drinken uit jouw bron.

 

Hoe ik ferm en vol vertrouwen door de Nederlandse weiden loop,

tussen koeien en modder, en me steeds verder van je verwijder.

 

Hoe mijn stappen zich verwijderen van jouw stappen, rennend naar de verre verten,in de hoop dat de wereld werkelijk rond is, en niet plat,

en dat ik op een dag achter je sta, mijn handen op je ogen leg en zeg

a minha pátria já não é a minha língua.

 

 

Joana Serrado

in Emparedada/ Uit de Muur, Uitgeverij de Passage, 2009, p. 32, 33

 

 

 

Se gostou deste post, considere subscrever o nosso feed completo.

Ou entao subscreva a Casa dos Poetas por Email!

postado pelo Casa dos Poetas às 13:24
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

04
Abr 09

 

vai. vai miúdo. serás maduro, um dia.

ir, avançar é sempre

atirar o corpo contra a pele

simples, tangível.

os braços, as mãos, os dedos

são trajectos salientes: salientes, apenas.

e as costelas não se desbotoam. mas vai. vai.

um dia estarás maduro, pisado

dentro de mim,

ainda.

 

Luís Ferreira Oliveira

in Vento, cordas do violino verde

(obra vencedora do Prémio Literário TUM 2007)

 

 

 

Se gostou deste post, considere subscrever o nosso feed completo.

Ou entao subscreva a Casa dos Poetas por Email!

 

postado pelo Casa dos Poetas às 08:07
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

02
Abr 09

Bilhete para a Lua

 

nascer como nasci não é nascer,

é dobrar a vida,

não se rasga a vida para nascer,

antecipa-se o fim que a vida é um dolo

 

nascer nas horas da lua

não é nascer

nascer como nascer é transportar

as viscosidades

 

havia uma partida

e uma estátua havia a lua

 

havia coisas que nos fazem nascer como não nascer

redobrar o amaro

 

ver assim a vida ver assim o mundo

e as primeiras palavras serem escritas

 

como nascer é partir para a Lua

como ver a luz é ter na luz a versão

dos avessos 

 

Norberto do Vale Cardoso

in Arbor

 

 

Se gostou deste post, considere subscrever o nosso feed completo.

Ou entao subscreva a Casa dos Poetas por Email!

 

postado pelo Casa dos Poetas às 01:01
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

27
Mar 09

 

 

Polishop

 

click,

dormem em simultâneo sobre as escarpas

e sobre a sua beleza suja,

interior ao sono, interior à chuva,

colocam as mãos nos bolsos como se lá estivesse

parte de uma incompletude que os completasse,

consolidam a solidão inacessível,

sentem o vento processar o seu rigor irregular

nos pulsos rasgados,

ouvem música petrificada, julgam que o ritmo

e o movimento da cabeça os podem apartar,

e por isso se intitulam apenas

de ouvintes de música,

click,

nunca saberiam assinalar, por exemplo, nos negativos

da presente sessão, os lugares íngremes

das suas infâncias que se auto-consolam

e auto-flagelam entre si.

sobre eles disparo como se atirasse a matar

sobre as suas ideias transumantes

em direcção à trovoada oca

dos meus olhos brancos.

click,

o crepúsculo carrega-nos, a confusão inicia-nos as fugas,

todas as fugas, todas as horas que a bem ou a mal

singram e quebram.

quem me dera poder embriagar-lhes a sombra,

desatar-lhes os nós da vida,

poder vê-los andar de novo,

e ficar aqui para sempre, neste fim de tarde,

compensando a minha completa falta de rosto

com a tripulação dos meus dedos

fingindo sobre a máquina fotográfica.

 

 

Tiago Nené

in Polishop

 

Fonte: Texto-al

 

 

Se gostou deste post, considere subscrever o nosso feed completo.

Ou entao subscreva a Casa dos Poetas por Email!

postado pelo Casa dos Poetas às 08:00
Canção:: Coldplay - easy to please
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: , ,

25
Mar 09

É um lugar cercado de água

 

É um lugar cercado de água por todos os lados. Ilha.

Nome próprio e singular.

Quer seja oceano, bairro, monte, eu não sei como lhe

Chamam no sul, por exemplo:

Ilha é outra coisa. É ser.

Cercar de todas as maneiras a possibilidade,

De acesso.

Ilha rima com filha, partilha (esta é dos karts), matilha

Camilha, e outros rores.

Que sempre falaram de ser.

Por todos os lados como o ar.

 

Jorge Fallorca Alpendre

& etc - subterrâneo três,

1988

 

 

 

Se gostou deste post, considere subscrever o nosso feed completo.

Ou entao subscreva a Casa dos Poetas por Email!

postado pelo Casa dos Poetas às 23:17
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: , ,

PARCEIROS
pesquisar neste blog
 
Membros no activo
Ana Luísa Silva / Joana Simões / Ana Coreto / José Eduardo Antunes / Tiago Nené
arquivos
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

links
blogs SAPO