No outro dia, por ocasião do lançamento da antologia de poesia de Casimiro de Brito 69 Poemas de Amor, na Biblioteca Municipal de Faro, o vereador da cultura de Faro, Augusto Miranda, discursava sobre a tradição dos poetas que haviam passado pelo Algarve e, em particular, por Faro. Nomes óbvios como António Ramos Rosa, Gastão Cruz, Luíza Neto Jorge, António Aleixo, Nuno Júdice, José Afonso, e o próprio Fernando Pessoa, vieram à colação. Mas Augusto Miranda foi ainda mais longe, evocando os poetas árabes que por lá passaram, deixando a sua marca, há muitos séculos atrás, influenciando os que viriam depois. Essa conversa motivou-nos na procura de alguns desses poetas.
Quem acompanha o nosso blogue sabe que já por algumas ocasiões dedicámos algum espaço a poetas árabes, principalmente aos contemporâneos. Estamos particularmente atentos ao grande trabalho sobre as ruínas do André Simões.
Mas voltando aos poetas árabes que passaram pelo Algarve, a Casa dos Poetas fez alguma pesquisa, sustentada em alguns livros de Adalberto Alves, grande investigador nesta área, e em páginas por essa internet fora. Há alguns nomes com muito interesse na poesia árabe do Algarve, como por exemplo: Al-Mu'tamid, IbnBadrun, Ibn Ammar, Abd Allah Ibn As-sid, Ibn Uázir, duas grandes poetisas Mariam e Xilbia, Ibn Darraj de Cacela, Abu Othman de Tavira, Ibn Hárun e Abu-l-Hasan ibn Sali ash-Shantamari de Faro e Al-Cutair de Loulé.
Talvez esteja por compilar toda essa história e por construir todas essas antologias, mas nós vamos procurar, sempre que possível, levar alguma coisa aos nossos leitores e que contenha essa vertente histórica. Hoje começamos com dois poetas que passaram pelo Algarve. Estes dois que infra sugerimos tiveram uma relação curiosa entre si, marcada pelo amor (uma rumorada relação homossexual) e pelo ódio (conspiração, morte). Achámos que nada melhor para começar este pequeno ciclo de poesia. Para quem tiver curiosidade e quiser aprofundar os conhecimentos históricos, recomendamos o livro de Adalberto Alves Portugal, Ecos de um Passado Árabe (Instituto Camões, 1999), disponível neste link.
Saudade
Breve será vencedora
A morte com tal paixão,
Se não estancas coração
Esta dor que me devora.
Ausente minha senhora
Mil cuidados me dão guerra.
Não logro paz cá na terra.
E o sono, que invoco em vão,
Com a sua doce mão
Nunca as pálpebras me cerra.
in Al-Mu'tamid.
Poeta do Destino,
trad. Adalberto Alves
Ela é uma frágil gazela:
Olhares de narciso
Acenos de açucena
Sorriso de margarida.
E se os seus brincos se agitam
Quedam-se os braceletes na escuta
Da música do requebro da cintura.
In O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa 1999

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