12
Fev 09

O POETA

 

O poeta teve de chorar muitos dias e noites

antes de se tornar poeta.

Com trinta anos apenas,

o poeta já tinha chorado muito pelos outros.

 

Ser poeta quer dizer: estender as mãos.

Ser poeta quer dizer: consolação.

O poeta está sempre ao lado

dos aflitos, dos pobres, dos sofredores.

Neste mundo de desigualdade,

ele é irmão de todos os solitários.

 

O poeta nunca se encontra sozinho,

ele alberga em si toda a sabedoria do povo.

 

Por fim, emudecido, o poeta morre

para que renasça como poema.

 

Ele é, para sempre, uma estrela fiel no firmamento.

 

 

***

 

Ko Un nasceu a 1 de Agosto de 1935, na província Jeolla do Norte, Coreia do Sul. É um dos mais importantes e produtivos poetas coreanos da actualidade. Passou dez anos num convento budista. Em 1960 é publicado o seu primeiro livro de poesia. Desde então publicou para cima de cem livros. Nos anos 70, princípios dos anos 80, foi perseguido, preso e torturado devido ao seu empenhamento político. Ko Un é, desde há anos, um dos sérios candidatos ao Prémio Nobel da Literatura.

 

 

***

 

 

Adaptação para o português de Luís Costa, a partir da tradução feita do coreano para o alemão por Woon-Jung Chei e Siegefried Schaarshmidt.

Este poema encontra-se no Livro “ Die Sterne über dem Vater Land der Väter “

Bibliothek Suhrkamp, 1996

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 10:30
Canção:: U2 -No line on the horizon
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

11
Fev 09

EM SILÊNCIO

 

para dizer

que o céu é azul

que os corpos se movem no espaço

que doce é a tua boca

e amargo o teu desprezo

 

para dizer tudo isto

bastam-me os sentidos

 

as palavras

não dizem o mundo

 

dizem o desejo

de dizer o mundo

 

Luís Ene

(Inédito publicado no Texto-al)

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 12:40
Canção:: Clã - Sexto andar
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa:

10
Fev 09

O PERFUME DE JASÃO

 

Desejo a eternidade como uma pomba nas minhas mãos.

Altazor. Huidobro.

 

AQUI, sobre o teu peito, sou pomba inofensiva.

Mas se me seguras em teus braços e me dizes a palavra que não espero, serei a fera zurrante que seduz outras feras e mata o irmão. Eu, que nunca tive as belas primaveras das outras mulheres, oferecer-te-ei velocinos de ouro que somente existem no esquecimento. Se são necessários os óbitos dos infantes, de Creúsa e Pélias, consumarei os meus crimes de amor. Mas tu, esposo,  até onde te leva a ambição? É fraude a tua fragrância: impossível salvar o abismo de anosmia que nos separa. Toda a despedida é triste e bela como uma demolição.

 

in Agência do Medo (2004-2008)

de Santiago Aguaded Landero,

Colecção Palavra Ibérica

(obra vencedora do Prémio Internacional Palavra Ibérica 2009),

edição bilingue,

com tradução portuguesa de Tiago Nené

 

Nota: poema em pré-publicação. A obra sairá no mês de Março do presente ano.

 

  

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 10:30
Canção:: U2 - The ground beneath her feet
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

08
Fev 09

Vem dando a mão  e distribuindo panfletos

fala-nos de direitos sociais

de honestidade e limpeza moral

o seu sorriso pepsodent brilha e cega

tem carisma e muitos o desejam

outros o injuriam e apelidam-no de Satanás

mas ele pode com todos

e a todos promete

um passaporte para o paraíso se nele votarem

a grande vida!

ele é um grande exemplo disso

de viver nesse bairro e no palacete com piscina

a sua visita é breve

e depressa pisa com firmeza o asfalto

subindo ao mercedes

depois saca um lenço e

conscienciosamente

limpa as suas mãos

de toda a sociedade.

 

 

Francis Vaz

in Antologia Drink River

com tradução de Tiago Nené

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 18:57
Canção:: U2 - I'll Go Crazy If I don't go crazy tonight
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

07
Fev 09

 

 

A mulher não esmorece perante

a literária lua.

Não levanta um medo para os flancos

da pouca noite.

A claridade, a claridade existe para além

dos escombros do filho que não está.

O corpo é uma praça iluminada

quando caminha com existência

visível.

A lua deita-se com esta mulher diária.

A mulher não adoece perante

a memória lúcida e cega.

Onde a areia branca?

 

Rui Dias Simão

in Os animais da Cabeça

21 poemas, 21 desenhos

(4 águas)

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 20:49
Canção:: U2 - White as snow
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06
Fev 09

OS CICLOS

 

Estive à conversa com o teu verdugo.

Um homem pulcro, amável.

Disse-me que, por ser eu,

podia escolher o modo de partires.

Os esquimós, explicou, quando ficam velhos

Perdem-se pelos caminhos

para que o urso os coma.

Outros preferem terapia intensiva,

médicos correndo ao redor, tubos, oxigénio

e inclusive um pároco aos pés da cama

fazendo sinais de hospedeira de bordo.

 

"É inevitável?", perguntei.

"Não devia ter vindo até aqui com essa chuva",

Respondeu-me.

Depois falou do ciclo dos homens, dos

aniversários, da dialéctica estéril do futebol, da infância

e os seus estrondos imensos cheirando a pneus.

"No entanto", disse sorrindo,

"as ambulâncias acabam devorando tudo".

Então assinei os papéis

e perguntei-lhe quando aconteceria...

Agora!, disse. Agora

tenho nos braços o teu vasilhame regressável.

E decido não chorar,

não fazer barulho,

para que lá no alto

possas achar

a mão erguida do teu falcoeiro.

 

Fabián Casas

 

Tradução original de Joca Reiners Terron.

Adaptação ao português europeu por Tiago Nené.

 

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 13:00
Canção:: Bruce Springsteen - Outlaw Pete
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa:

05
Fev 09

HOMEM

 

Ele respira no ar, respira na erva temporã

respira os caules que se agitam,

todas as canções enquanto ainda se podem escutar,

uma mão quente de mulher sob a cabeça.

Respira, respira - mas não chega.

 

Respira a mão -

que é única para ele,

respira o seu país -

que é único para ele,

chora, sofre, ti, assobia,

e fica calado à janela, e canta até de madrugada,

e folheia amorosamente a sua curta vida.

 

Bulat Okudjava

Tradução de Manuel de Seabra

 

 

Na primeira noite, eles se aproximam
e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles,
entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua,
e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

 

Maiakovski

Tradução de João Bastos

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 09:30
Canção:: My Lucky Day - Bruce Springsteen
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa:

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