20
Fev 09

Ele, o Sr. Pessoa, acolhia bem a vida. Vamos escrever com letra grande:

amava e era sensível à Vida, e se ela assumia um semblante

ele ficava contente por saudá-la e tinha o quarto limpo expressamente

para acolher a deusa - mas não tentava prendê-la ou demorá-la.

Há homens que se portam como se a vida fosse uma jovem apetecida:

armam ciladas, fazem negaças, exibem-se se sabem que ela os vê.

O Sr. Pessoa por seu lado lidava com a vida mais como vizinho:

ela nunca andava longe e ele tinha a certeza de a encontrar às vezes.

Costumavam falar na rua, cavaqueio sem outras intenções,

às vezes ela passava lá por casa e então durava mais o convívio,

ela era visita, ele anfitrião, e o diálogo parecia mais estruturado

depois, já de saída, mais um sorriso, cinco minutos de conversa à espera do carro.

O grande desejo do Sr. Pessoa era só que a Vida o aceitasse

como presença sem pretensões, amante que não ousava possuí-la:

ficar ali, quieto, confiante, até ao dia de irem buscar o seu caixão.

  

JOHN WAIN

 

in Reflexões sobre o Sr. Pessoa / Thinking about Mr Person, tradução de João Almeida Flor, edições Cotovia, 1993 - Fenda edições, 1981

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 08:00
Canção:: Cesária Évora e Marisa Monte - Mar Azul
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19
Fev 09

POEMA

 

Para o Mário Cesariny

 

Moveu-se o automóvel - mas não devia mover-se

não devia!

 

Ontem à meia-noite três relógios distintos bateram:

primeiro um, depois outro e outro:

o eco do primeiro, o eco do segundo, eu sou o eco do terceiro

 

Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começam

Pregões de varina sem peixe

- o peixe morreu ao sair da água

e assim já não é peixe

 

Assim como eu que vivo uma VIDA EXTREMA.

 

 

António Maria Lisboa

 

 

 

 

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Canção:: U2 - Stand Up Comedy
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18
Fev 09

CONSELHOS DE ÚLTIMA HORA

(excerto)

 

GRITA,

Até não poderes mais.

 

Chora, desespera.

Morre

Pelo menos

Uma vez por dia.

 

E se com tudo isto

Ainda quiseres ser poeta

 

Só posso desejar-te sorte

Muita sorte

nesta vida.

 

 

Isabelita, poeta espanhola

(tradução de Tiago Nené)

 

 

 

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Canção:: A Naifa -Monotone - de 3 Minutos Antes De A Maré Encher
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16
Fev 09

O SOL

 

o sol nascia no meu peito

iluminando-me a face,

lembras-te?

 

podia(s) senti-lo a tocar-me a pele.

 

podia(s) sabê-lo

no sorriso mais livre

que jamais me aconteceu.

 

 

Sílvia Chueire

 

 

 

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Canção:: Passengers - Slug
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14
Fev 09

 

 

JOHN UPDIKE

 

Morreu sem um critério rigoroso.

Não se poderá dizer que tenha sido a lei da vida

ou a lei da morte

ou uma derradeira e infinita

composição da urgência.

Hoje morreu-lhe o corpo, morreu porque assim

disseram os médicos, porque assim

disse o seu pulso frágil como o equilíbrio

da terra, e porque agora é o tempo que o respira.

Hoje morreu-lhe o corpo, repito em voz alta.

E isso é tudo o que,

da perspectiva da nossa memória incompleta,

precisamos de saber.

 

Tiago Nené

in Instalação (a lançar em 2009)

(poema publicado pela primeira vez no blogue do texto-al, grupo literário do Algarve)

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 08:00
Canção:: Joy Division - Love Will Tear us Apart
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13
Fev 09

Rio

 

As águas vêm de longe,

trazem o mundo,

os montes a terra as pedras

os bichos e o pólen

as folhas e a luz

a chuva o granizo

e a sede dos homens

o rumor das noites e dos dias.

Rio vivo, quase mudo,

cheio de água

cheio de terra

cheio de tudo.

 

Mar

 

O mar,

o meu mar.

 

todo o mar

do mundo

ao meu encontro.

 

Mar meu,

centro.

 

Mergulho

no mar.

Entro?

 

Ou entra

em mim

o mar?

 

João Pedro Messeder

in Versos com Reversos

Editorial Caminho

(com ilustrações de Danuta Wojciechowska)

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 20:22
Canção:: U2 - Moment of surrender
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12
Fev 09

OUTRO POEMA

 

Nunca escreverei um último poema.

Depois do que disser,

Haverá sempre as frases do improvável.

 

A aceitação revelará o limite desejado,

Mais nítido

Do que todos os que poderia encontrar.

 

Não me pertence a última palavra

E não deixarei lembranças.

 

Apontarei para a dispersão

Por meio de um afectuoso silêncio.

 


Joel Henriques

In A Claridade

Verão de 2008

Casa do Sul

 

Joel Henriques é um poeta nascido nas Caldas da Rainha em 1979. Lançou o Fio da Voz, o seu primeiro livro, em 2007. Em A Claridade, de onde retirámos o poema supra, encontramos um livro recheado de poemas muito expressivos, com uma vivacidade subtil, expressa na arte de dizer muito por poucas palavras. Foi uma boa surpresa em 2008 e continuamos a recomendá-lo aos nossos amigos.

 

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 16:00
Canção:: Oasis - I'm outta time
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