26
Dez 08

 

 

PORNOGRAFIA

 

Segundos antes de se terem actualizado as notícias sobre o crime

Eles levaram o corpo semi-nu para um armazém

 

Num Volvo despercebido  (assim que a noite escurecia

Como carne humana com feridas e pequenas contusões cor-de-laranja

 

Nas suas margens), passaram por locais próximos os investigadores

e especialistas forenses de Dublin, a equipa do helicóptero da sky news.

 

Guardas com os seus coletes fluorescentes passavam através de um túnel

Esculpido por microfones e um tufão de fotógrafos

 

Que me fez pensar no lirismo dos versos do Cantona

Sobre as gaivotas seguindo os navios esperando que as sardinhas

Fossem atiradas a mar.

 

Passou uma carrinha amarelada não muito longe das sombras,

Ligou-se a uma tomada e começou a vender batatas fritas.

 

 

Billy Ramsel in Complicated Pleasures

Com tradução de Tiago Nené

 

 

BILLY RAMSELL, poeta irlandês, nasceu em Cork in 1977. Os seus poemas têm aparecido nas mais importantes revistas e jornais, tendo sido nomeado para um Hennessy award. Os poemas em Complicated Pleasures, o livro de estreia do poeta, estão na fronteira entre o pessoal e o político. O poema pornografia, um dos poemas da citada obra, é uma versão não completamente literal para português feita pelo poeta Tiago Nené.

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 17:00
Canção:: U2 - Gone - Album POP
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

Na impossibilidade de apresentarmos uma tradução exclusiva de um dos poemas do poeta Harold Pinter, como tem sido hábito na Casa dos Poetas, pedimos emprestado o poema que se segue ao blogue Lugares Mal Situados.

 

O MUNDO ESTÁ PRESTES A REBENTAR

 

Não olhes.

O mundo está prestes a rebentar.

 

Não olhes.

O mundo está prestes a despejar a sua luz

E a lançar-nos no abismo das suas trevas,

Aquele lugar negro, gordo e sem ar

Onde nós iremos matar ou morrer ou dançar ou chorar

Ou gritar ou gemer ou chiar que nem ratos

A ver se conseguimos de novo um posto de partida.



Harold Pinter
Várias Vozes

Escritor, dramaturgo e poeta Harold Pinter, prémio nobel da literatura 2005, faleceu ontem à noite, aos 78 anos.

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 15:28
Canção:: U2 - Pride (in the name of love)
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25
Dez 08

Giacometti, corpo fragilizado, ténue

Esvai-se a tua escultura.

A ti, o mais efémero.

 

Discreta morte, esta, dos mundos indizíveis.

Lamento: a dor é originária do parto.

 

Talvez seja este o limite. O nosso.

Aquele que pressente a fugacidade da permanência.

 

Anjos caídos?

Brônzeas figuras.

A criança não conhece o homem

Neste universo sem chave.

 

Ana Marques Gastão

do livro Tempo de Morrer Tempo para Viver

Universitária Lisboa

Lisboa 1998

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 12:48
Canção:: Rui Reininho - Lados B
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Num dia especial, um poema especial...

 

 

VERDE

 

O homem do povo descreveu as folhas como sendo verde-água.

Ao evocá-las no seu romance, o escritor as definiu verde-esmeralda.

Quando se fez o filme baseado naquela história, o realizador pediu

aos actores que apareciam debaixo da árvore

para que vestissem roupas a condizer com o verde-hawai das folhas.

Os trabalhadores que retiravam os cenários, mal-humorados

e sonolentos, viam-nas verde-escuro.

Já ninguém se lembra dela, mas a árvore permanece no seu sítio.

Viu engrossar a sua cortiça e cresceu alguns centímetros.

Presa sem mérito ao solo recebe agradecida a chuva, balança

com o temporal e dá sombra a quem se aproxima.

Não sabe que inspirou um livro ou que apareceu num filme.

Se fosse um homem diríamos que é dessa espécie de sábios

que ignoram os adjectivos que qualificam cada verde que vêem.

 

 

Rafael Camarasa, in El Sitio Justo/O sítio justo, edição bilingue. Obra vencedora do Prémio Palavra Ibérica. Tradução de Tiago Nené.

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 11:10
Canção:: The Songs I Didn’t Write - Creaky Boards
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23
Dez 08

Intumescência

 

Só a uma cerejeira coberta de frutos brilhantes e carnudos, vermelhos na sua tonalidade prestes a rebentar de dentro de si mesma, só a uma árvore no pleno esplendor da sua gravidez, só a uma estação alta situada na mais alta montanha, se podem comparar uns lábios.

 

Frutos vermelhos colocados uns ao lado dos outros, suplicando a poucos milímetros uns dos outros: misturem-nos as polpas! Desfaçam-nos o brilho, o insuportável contorno da perfeição, este desenho ardilosamente concebido para ser imagem, este desejo tornado eterno na proliferação dos frutos, no cume das árvores, na extrema necessidade das polpas se abrirem, se derramarem.

Comam-nos, desfaçam-nos, desfigurem-nos, assassinem-nos, pedem os lábios na projecção muda do seu fulgor, índices da glória, velas tensas até ao máximo sustentável das gáveas.

Meu deus, dizem os mortais que passam sob as estações assim floridas, ao lado das montanhas assim erguidas, roçando os ombros no brilho audacioso da Realidade, como vamos poder viver depois disto, como vamos sobreviver às imagens?

Custa morrer, custa desaparecer da terra da alegria, aquela onde florescem campos imensos de árvores de fruto, polpas se espalham na atmosfera, e raparigas saem de dentro de um gelado cor de rosa para dizer: olhem! aqui estamos, irredutíveis como todas as perguntas, vejam o violeta, o vermelho, o grená, vejam as cores, vejam os brilhos, vejam os lábios. sintam este ardor pronto a rebentar. esta torrente que a imagem conseguiu conter até agora à sua superfície.

As raparigas, sabe-se, são dos seres mais cruéis. Atiram para a frente a sua juventude, a sua incrível florescência. E comem gelados, devagar, como quem pinta os lábios, sempre devagar, num estranha maquilhagem que sobe sempre ao alto das mesas, mostra algo de interior, de íntimo, e no entanto é só uma superfície, um relance, uma cerejeira toda florida e toda fosforescente na sua intumescência.

 

Vítor Oliveira Jorge, 2008

 

Para o livro “ELECTRI-CIDADE”

 

 

Vítor Oliveira Jorge é professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, é arqueólogo, poeta e ensaísta.

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 15:43
Canção:: The Last Shadow Puppets - My Mistakes Were Made For You
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VISÕES

 

Procura guardá-las, Poeta,

por poucas que sejam de guardar,

do teu amar as visões.

Coloca-as no meio ocultas nas tuas frases.

Procura detê-las, Poeta,

quando em tua cabeça elas despertam,

de noite ou na luz crua do meio-dia.

 

 

Konstantinos Kavafis, poeta grego

Tradução de Jorge de Sena

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 13:45
Canção:: U2 - No Line On the Horizon - Breathe
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22
Dez 08

TUDO ESTÁ DITO

 

Tudo está dito

E nada visto

 

A ordem obedece à morte

como o passo à vida

. . . . . . .o ausente

 

tudo está dito

 

. . . . . . .viver e criar

 

. . . . . . .crer

 

E continuar a viver.

 

 

Lucy Romero

com tradução de Tiago Nené.

 

 

Lucy Romero é uma poeta peruana. Lançou Ave Nocturna no Peru, em 2002, aquele que segundo cremos é o o seu único livro de poesia.

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 13:00
Canção:: Ana Free - In My Place
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