27
Nov 08

Num lugar mal situado encontrámos este poema, um dos que integram o novo livro do jovem poeta Rui Lage.


CAÇA GROSSA

 

Entopem o gargalo da toca

espetando o nariz, calcando

esquivo lagarto pateando

ossinhos de rato no Éden

de outra vida

enquanto das élficas orelhas

sacodem dejectos de sol:

duas raposas recém-nascidas.

 

Indiferentes ao milhafre

e à doninha,

em qualquer colo felizes

de qualquer leite beberiam.

 

Mas na aldeia,

numa porta de estábulo

imunda e carunchosa

o sangue secou no ruivo pêlo

e na materna cabeça a pólvora

onde a bala deu entrada.

 

 

Rui Lage

Corvo,

Quasi Edições,

2008

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 13:30
Canção:: U2 - Mercy
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

Na Casa dos Poetas procuramos ter um olhar sobre o mundo. Deste vez parámos na escandinávia, mais precisamente na Suécia. Esperamos que gostem dos poetas suecos que apresentamos. Maria Wine e Gunnar Ekelöf, entre outros nomes, como Dan Andersson, Eyvind Johnson, Birger Sjöberg ou Tomas Tranströmer, representam a melhor poesia que por lá se faz. Próxima paragem: Finlândia.

 

 

A mulher submerge-se no banho

com a mesma doce espera

com que se aproxima do leito do amante

e se deixa fundir lentamente

na água tépida suave

Agua de carícia envolvente

que eleva os seios

e os balanceia

pontas que despertam as suas bocas vermelhas

mãos que se abrem como estrelas do mar

e navegam pensativas de um lado para o outro

e roçam de vez em quando as curvas do corpo

A cabeça é um nenúfar que se move

sobre a superfície da água

e na esperança dos olhos

crescem sonhos luminosos

que nenhum amante

poderá jamais cumprir.

 

Maria Wine com tradução de Casimiro de Brito

 

 

É o silêncio que deves escutar

o silêncio por detrás das alusões, das elisões

o silêncio por detrás da retórica

o silêncio do que se chama a perfeição formal

Isto é a busca do não-sentido

até no próprio sentido

e reciprocamente

Ora tudo o que com arte escrevo

justamente é sem arte

e todo o cheio é vão

Tudo o que escrevi

está escrito entre as linhas

 

Gunnar Ekelöf com tradução de Vasco Graça Moura

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 08:20
Canção:: God - The Beatles
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

Depois da queda da Byblos e do fiasco que está a ser a promoção de livros grátis da Wook (os chamados "momentos Wook", com um site sempre a cair na hora H) é excelente a notícia da abertura de uma livraria só dedicada à poesia. Poesia incompleta é assim o nome do espaço. Um dia destes alguém da Casa dos Poetas passará por lá com certeza. Por agora aproveitamos para cumprimentar os criadores deste brilhante ideia e deixar uma imagem aos leitores que acompanham o nosso blogue em jeito de convite para que visitem esta nova livraria.

 

 

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 01:54
Canção:: Elvis Presley - Can't help falling in love with you
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa:

26
Nov 08

A poesia actual deve ser compreendida olhando-se para os nossos antepassados, os primeiros grandes poetas do mundo. A tradição religiosa é uma boa fonte na poesia, nomeadamente com os Salmos e os Hinos. O nome de Deus era cantado nestes poemas muito directos e com ideias fortes numa linguagem simples.

 

XXII. YMNOS

 

Hinos e salmos ele cantava

Cânticos divinos e o Apocalipse.

A palavra escrita comentava

Para ilustrar o povo de Deus.

Esta é a lei que anunciava

Alei ta Trindade do Nome Sagrado.

Esta a verdade que ensinava

Uma Substância em Três Pessoas.

 

 

In O grito do GamoPoemas celtas da fé e do sagrado (assírio e alvim)

Tradução de José Domingos Morais.

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 21:50
sinto-me: contente
Canção:: Zucchero - Miserere
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

Espaço para os jovens poetas sem obra editada mas de muita qualidade. Onde andam as editoras deste país?

 

 

O homem está

Contra o homem

Numa luta contínua. Ferram-se mutuamente

Onde lhes dói mais: no ego animal

E é injusto assistir a esta peleja invisível

De um miradouro situado a fossos intransponíveis

Quando eles, homens, não me conseguem ver

Choro enquanto assobio rezas inúteis

 

 

O que vai ser do homem quando o homem o matar?

Cansado de batalhar ao espelho, senta-se numa pedra

E vejo-o ler a chuva que lhe cai na alma

Ambas tingidas de preto morte

Vermelho sangue que o seu igual derramou

No nosso colchão comum. Esperam-lhe o peso na consciência

Que deviam ter tido quando lhes segredei ao ouvido enlameado:

«Olha que aquilo que atiras ao teu semelhante não é mais do que a tua existência

[em forma de bomba]

 

Caio ao caíres na vala que juntos escavaram. Era o aviso e não sou

Mais do que vocês que por aqui já não estão. Cansei-me da vida quando

A vida me deixou à espera. Cansei-me de ti quando não estavas. Cansei-me

De existir enquanto nos matavam estrelas a caírem no quintal. Cansei-me apenas. E de que vale escrever as letras quando quem ia falar a lê-la já cá não está? Cansei-me.

 

 

Pedro S. Martins, um jovem poeta

(inédito)

postado pelo Casa dos Poetas às 16:30
Canção:: Leve beijo triste - Paulo Gonzo
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

A Casa dos Poetas dedica este poema a Inês Ramos, do blogue Porosidade Etérea, pelo gosto pela descoberta dos novos poetas.

 

UM POETA NOVO

 

Encontrar um poeta novo

é como encontrar uma flor nova

selvagem no bosque. Não vês

 

o seu nome nos livros de botânica,

e ninguém acredita, assim que o disseres,

na sua cor estranha e no modo

 

como as suas folhas crescem em fila

sobre todo o comprimento da página.

De facto, cada página cheira a vinho tinto

 

derramado e a frescura do mar

num dia nebuloso - o odor da verdade

e o costume da mentira.

 

E as palavras parecem tão familiares,

tão estranhamente novas, palavras

que tu quase escreveste, se somente

 

nos teus sonhos tivesse havido um lápis

ou uma caneta ou até um pincel,

se apenas tivesse havido uma flor.

 

Linda Pastan, poetisa americana de origem judaica. Para ler uma análise a este poema em inglês, seguir por este link. A tradução do poema pertence a Tiago Nené.

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 09:15
Canção:: Clã e Jorge palma - Convite (caixa de mensagens)
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

25
Nov 08

Elio Pecora, nascido em Sant'Arsenio, Salerno, em 1936 é um poeta, romancista, ensaísta e dramaturgo italiano. Viveu em Nápoles até à adolescência e aos trinta anos parte para Roma  onde vive até hoje. A sua obra poética inclui os títulos La chiave di vetro. Bolonia: Cappelli, 1970, Motivetto. Roma: Spada 1978, L'occhio mai sazio. Roma: Studio S., 1985, Interludio. Roma: Empiria, 1987 y 1990, Dediche e bagatelle: Roma, Rossi & Spera, 1990, Poesie 1975-1995. Roma: Empiria 1997 y 1998, Per altre misure. Génova: S. Marco dei Giustiniani, 2001.

Em Portugal foi agora publicado Poemas Escolhidos, uma antologia de Elio Pecora com tradução de Simonetta Neto e introdução de Maria Bochicchio. Foi de lá que retirámos estes dois poemas:

 

CONFIDÊNCIA

 

Espera-me no espelho

como num velho conto de desconfiada loucura,

raramente me olha

porém, conheço bem o desprezo que alterna com o medo,

estamos juntos ab initio

decerto estaremos até ao extremo encerramento

quando voltarmos a partir

rumo àquele nada que a nós, como a todos, toca.

De vez em quando o esqueço

e, ao andar, torna-se leve e contente o percurso,

mas cedo o ignorado

volta a contar os passos, a tirar o fôlego;

vi-o, apetrechava-se

de esperanças algo dúbias, de prémios baratos,

quando bastava

ministrar-se as ânsias e os desejos nunca calados.

Da vez em que tentei deixar o quarto do seu triste segredo

entreabriu a porta

e mostrou-me, num ápice, apenas areia e cinza.

 

 

 

Atravessar a dor

como um quarto escuro

contando os passos, os fôlegos.

Procurar no fechado

um buraco, uma fenda,

para que não seja memória

mas presença

naquela ausência a luz.

 

À saída saber

que é preciso voltar.

E a alegria ainda

à espera do assalto.

 

 

Elio Pecora

in Poemas Escolhidos, tradução de Simonetta Neto, Quasi, 2008

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 13:00
Canção:: U2 - Vertigo
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

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