11
Mar 09

 

 

 

A MÚSICA

 

A música partilha com a flor

a carne que se alaga como um copo.

A música é um rizoma atómico

cheia de sílabas grossas e finas

no peito maduro da onda.

 

Por isso a onda cai e a flor

também. E se te digo sei que ficas

triste e é quando substituis essa

geração de força por dois pequenos

vasos à entrada do teu dorso (e qual

és tu e qual sou eu é uma haste subindo)

 

Do teu lado esquerdo é dia.

O vestido é branco e aponta

a cidade a que chegas com os

dedos, rodando os ombros mas

não a cabeça. O teu olhar

é uma ferida musical sem verbo fixo:

a penumbra bate às vezes na

pálpebra, outras na imaginação.

 

A queda gera o seu próprio

impulso, como se fosse o preen-

chimento de uma forma: chama-se amor

e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar

do desejo, esses versos de asa silenciosa-

ouves?

 

Há poetas azuis que julgam que a

coerência é um pardal azul (da goela

até aos pés). Normalmente limpam os óculos

com coerência, em vez de com (enfim)

e depois vêem o mesmo pardal, a todas

as horas do dia e da noite, sentado azul-

mente sobre o seu nariz azul.

 

Pela direita, dizes que os versos

não caem se mudares constantemente

o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-

ção do vento sabe do remorso dos bichos mais

pequenos: procura as palavras junto ao chão

e se não me vires,

é porque o silêncio é também a música

e canto-a sem nome

para ti

 

Rui Costa

in Um poema para Fiama

Labirinto

2007

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 08:30
Canção:: Queen - Too much love will kill you
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: , ,

20
Out 08

O pão

 

 

Há pessoas que amam

Com os dedos todos sobre a mesa.

Aquecem o pão com o suor do rosto

E quando as perdemos estão sempre

Ao nosso lado.

Por enquanto não nos tocam:

A lua encontra o pão caiado que comemos

Enquanto o riso das promessas destila

Na solidão da erva.

Estas pessoas são o chão

Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos

E pôs um fruto negro no lugar do coração.

Estas pessoas são o chão

Que não precisa de voar.

 

 

 

Poema inútil com montanha

 

 

Vejo a montanha à minha frente pousada

Sobre a água sempre verde, e penso na inutilidade

De tudo o que ela é, e na inutilidade de estar pensando nisto,

Quando um pensamento inútil me sugere

Que a montanha pode ser

Um pormenor pensado por ela

Na paisagem do meu próprio peensamento, para

Com isto me levar a pensar sobre pensamentos,

E não sobre montanhas, ficando ela, como antes,

Pousada na água sempre verde, sem ser

Pensada por ninguém.

 

 

 

Autobiografia

 

 

Não preciso mas tu sabes como eu sou

Encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas

Das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.

As pessoas quando acordam são outras, já sabias,

Essa névoa contemporânea do medo miudinho

Que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste

Antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o

Lago do feitiço, inocente homem breve que sonha

Tu bem sabes.

Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.

E a minha vida mudou, a noite cresceu,

A vertigem ardeu-me nos braços até a sangria

Do tédio quando para sempre julguei que te perdia.

Na luta perdi um ou dois braços,

Mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,

São corais no pensamento. Jardins e fantasmas,

O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica

E profunda: sem braços e agora sem mais nada.

Não me percebeste, enchi-me de fúria.

É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e

Atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos - ,

Ceifando. Saturno.e.o.vento.na.proa.erguendo.

O: navio:no:mar:parado:parado: completamente.

Parado.como dizer? Não dizer, eu sou.uma vida

Medonha e múltipla. E agora descanso

Deitado nestas mãos que mexem

Sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos

P’la manhã.

 

 

 

A nuvem prateada das pessoas graves

 

 

Nem sempre se deve desconfiar das pessoas

graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,

os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão

depois.

Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo

dos pés e por isso do outro lado do mundo.

O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés

e mais longe ainda das mãos

que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos

se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.

Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias

quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas

pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo

que foram ou das pessoas que amaram.

Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no

chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas

pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.

 

 

Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (Edições Quasi)

 

postado pelo Casa dos Poetas às 17:06
Canção:: Herman José - Podia acabar o mundo
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: , ,

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