02
Nov 08

Na Casa dos Poetas somos grandes fãs de Paul Auster. Desconhecido para o grande público como poeta, sendo muito reconhecido como contista e romancista devido a best-sellers como trilogia de nova iorque, mr. vertigo, timbuktu, o livro das emoções e a noite do oráculo, aqui tentamos mostrar o talento de Auster para a poesia, género em que deu os primeiros passos no mundo da literatura. Os poemas que se seguem, à semelhança de outro poema que aqui já colocámos, integram a antologia poemas escolhidos, lançada pelas edições quasi em 2002 e tem tradução de Rui Lage.

 

 

 

Fragmento de frio

 

Porque cegamos

No dia que sai connosco,

E porque vimos o nosso hálito

Embaciar

O espelho do ar,

A nada se abrirá

O olho do ar

Senão à palavra

Que renunciamos: o inverno

Terá sido um espaço

De maturidade.

 

Nós que nos tornamos nos mortos

De outra vida que não a nossa.

 

 

Irlanda

 

Gasta de turfa, ó tu em abandono posta de charnecas,

Tu, a mais nua, banhada na escuridão

Da profunda e verdejante

Ravina, da cama cinzenta

Que o meu fantasma

Furtou à boca

Das pedras – investe-me de silêncio

Com que ampare as asas das gralhas, concede-me

Que de novo passe por aqui

E respire o ar acerbo e maltratado

Que ainda trafica a tua vergonha,

Dá-me o direito de te destruir

Na língua que empala

A nossa colheita, as cruéis

Searas do frio.

 

 

 

Paul Auster

postado pelo Casa dos Poetas às 11:30
Canção:: The Corrs - Runaway
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: , ,

16
Out 08

Azul. E nesse azul uma sensação

de verde, as cinzentas calotas de nuvens

amparadas contra o ar, como se

na ideia da chuva

o olhar

pudesse domar a fala

de um dado momento


 

na terra. Chamem-lhe o céu. E assim

descrever

o que quer

que vemos, como se nada mais fosse

que a ideia

de algo que tínhamos perdido

cá dentro. Podemos começar, pois,

a recordar


 

a terra dura, as estrelas

dardejantes de sílex, os undíferos

carvalhos, soltos

pelo resfolegar do vento, e assim até

à mais ínfima semente, descobrindo

o que sobre nós cresce, como se

por causa deste azul pudesse haver

este verde


 

que alastra, nisto inumerável

e milagroso, o mais silente

momento do verão. Sementes

falam deste ciclo, definem

o lugar onde o ar e a terra irrompem

nesta profusão de acaso, as aleatórias

forças da nossa falta de conhecimento

acerca daquilo

que vemos, e meramente falar disso

é ver

como as palavras nos falham, como nada sai bem

no dizer disso, nem sequer estas palavras

que sou levado a dizer

em nome deste azul

e deste verde

que se dissipam

no ar do verão.


 

Impossível

Continuar a ouvi-lo por mais tempo. A língua

para sempre nos aparta

de onde estamos, e em parte alguma

podemos repousar

nas coisas que nos são dadas

a ver, pois cada palavra

é outra parte qualquer, algo que se move

mais depressa que o olhar, mesmo

enquanto se desloca este pardal,

voluteando rumo ao ar

onde não tem lar algum. Não acredito, então,

em nada


 

do que te possam dar estas palavras,

e contudo ainda posso senti-las

a falar através de mim, como seja

isto somente

o que desejo, este azul

e este verde, e dizer

como este azul

se tornou para mim na essência

deste verde, e mais do que a pura

visão disso, quero que sintas

esta palavra

que o dia inteiro viveu

dentro de mim, este

desejo de nada


 

que não o dia em si mesmo, e o modo como cresceu

dentro dos meus olhos, mais forte

do que a palavra de que é feito,

como se jamais

outra palavra


 

me pudesse amparar

sem se quebrar.


 

 

Paul Auster

(in Poemas Escolhidos . tradução de Rui Lage - Quasi)

postado pelo Casa dos Poetas às 21:56
Canção:: mazzy star, among my sawn, 'flowers in december'
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: , ,

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