20
Nov 08

Já aqui dedicamos algum espaço a Mário Cesariny, um dos maiores vultos da literatura portuguesa e do Movimento Surrealista Português do Séc. XX. Hoje, para além de Pena Capital, talvez o livro mais representativo do poeta, pegámos em O Virgem Negra, obra que parece algo esquecida. 

 

OLHO O CÔNCAVO AZUL

 

Olho o côncavo azul do firmamento

é tarde

um sobretudo agita-se para os lados de alcântara

 

Felizes os que morreram canta um sino

e com certo compasso certa razão se se pensa

na quantidade de espaço ocupado

pelos que sopram coisas há séculos debaixo de terra

os que vêm aqui fazer eternidade grandes ovas do espírito

 e não levam para lá coisa nenhuma

nem um pequeno vaso    uma estatueta de bolso

um balão de criança que é tão leve

nada

porque o lá não existe    lá, nós que carreguemos

as mil missas em ré do bicho-de-conta

as quinhentas pinturas do mão já nenhuma

o bilião de palavras do caveira três

e mais os planetas desertos, que também mandam coisas

 

Felizes os que morreram    realmente    ó sino

mas mais felizes ainda os que mataram

mais felizes os que ergueram à altura simples do corpo punhal

fundente

as molas sete e oito da grande máquina

e a quebraram nos ossos do espectáculo

porque ele é a usura

da noite de cavalos submergidos no lago

a estrada contra-curva

onde Harcamone passa a caminho do teatro

a uma mesa de mortos galvanizados

 

Porque a poesia não é para galvanizar isso

a poesia    a poesia

o recôncavo azul do firmamento

que é negro

e outras coisas mais

se ainda é tempo de ver por cima do prato

os vigia    os paloma    os clandestinos    os lâmpara

os invisíveis anjos guardadores

do trabalho que não pode ser adiado

e não esta linguagem de lamento esta linha de rogo que frustra a voz

não este verso exposto a mil vagares na almofada branca de uma página

mil vezes decapitada na praça pública

em oitavas e quartas paralelas e sétimas dominantes cheias de horror

e ainda assim contentes

de bailarem em torno do seu próprio círculo

mas o que na manhã só uma vez quase ouvimos

um para o outro

um dentro do outro

mais interiores à magnificência da espécie

do que aos espaçosos e nobres labirintos do canto

 

Mário Cesariny

Poemas de Londres

Pena Capital

Assírio & Alvim

 

 

ONAN DOS OUTROS!...

 

Onan dos outros! Ó deus que dás confiança

Só a quem já confia!

E não à morrente ou garça mão que se ansa

Varonil e vazia.

 

O Virgem Negra, tal me descobriram

Cincoenta anos depois,

Em minha infusão estou. Tombam, deliram

Em vão quantos seguiram

 

Minha viagem ao nunca ser dois.

No seu andor de luto e de desgraça

O Virgem Negra passa

Maior que todos os sóis.

 

 

Mário Cesariny

O Virgem Negra

Assírio & Alvim

 

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 14:29
Canção:: Dire Straits - Romeo and Juliet
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: , ,

08
Nov 08

Em jeito de homenagem à cidade de Londres encontrámos dois poemas de épocas diferentes. O primeiro é de Mário Cesariny, um poeta do surrealismo português do Século XX, importante movimento do nosso país, e o segundo é de Manuel A. Domingos, jovem poeta natural de Manteigas e que lançou este verão o livro Mapa pela livrododia editores.

 

 

OS PÁSSAROS DE LONDRES

 

Os pássaros de Londres

cantam todo o inverno

como se o frio fosse

o maior aconchego

nos parques arrancados

ao trânsito automóvel

nas ruas da neve negra

sob um céu sempre duro

os pássaros de Londres

falam de esplendor

com que se ergue o estio

e a lua se derrama

por praças tão sem cor

que parecem de pano

em jardins germinando

sob mantos de gelo

como se gelo fora

o linho mais bordado

ou em casas como aquela

onde Rimbaud comeu

e dormiu e estendeu

a vida desesperada

estreita faixa amarela

espécie de paralela

entre o tudo e o nada

os pássaros de Londres

 

quando termina o dia

e o sol consegue um pouco

abraçar a cidade

à luz razante e forte

que dura dois minutos

nas árvores que surgem

subitamente imensas

no ouro verde e negro

que é sua densidade

ou nos muros sem fim

dos bairros deserdados

onde não sabes não

se vida rogo amor

algum dia erguerão

do pavimento cínzeo

algum claro limite

os pássaros de Londres

cumprem o seu dever

de cidadãos britânicos

que nunca nunca viram

os céus mediterrânicos

 

Mário Cesariny, in Poemas de Londres

 

 

 

LONDRES

 

nunca cheguei a escrever um poema sobre

a cidade ser à noite um carrossel

de luzes. nem outro sobre

a fotografia onde fiquei com ar

envergonhado. ou sobre o frio e

o passeio por Hyde Park, onde

pássaros vieram comer às tuas mãos

e eu deixei fugir alguns versos

só para te poder fotografar. ou sobre

a casa estilo vitoriano, que prometeu

ocultar todas as palavras que dissemos

um ao outro, quando ao deitar

nos encolhíamos debaixo de

vários cobertores e mesmo assim

tínhamos frio. ou o definitivo,

aquele que falaria sobre Greenwich

e o meridiano que me ensinou a importância

do tempo que sempre falta, principalmente

quando numa das pontes quis dizer amo-te,

mas havia um autocarro para

apanhar. e era já o último.

 

 

manuel a. domingos in mapa

 

 

postado pelo Casa dos Poetas às 00:26
Canção:: David Byrne - The man who loved beer
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