07
Mai 09

Os noticiários da manhã

 

Os noticiários da manhã abriram com essa imagem

fabulosa: dois poetas construíam um edifício.

Não era um edifício abstracto. Não

era o utópico edifício do coração das obras.

Era um edifício verdadeiro: alicerces,

paredes, telhado; pedra, tijolos,

cimento. Em vez do exercício habitual

de poetas procurando destruir os edifícios

todos da cidade, um a um, disparando canhões

de pólen, estes dois poetas erguiam

um edifício verdadeiro, concreto,

tangível. E isto é de uma humanidade

comovente. E isto chego a pensar

que quase merecia um poema.

 

É verdade que sinto

 

É verdade que sinto um imenso desprezo

pelos poetas. Por todos os poetas.

Esses seres ignóbeis que escrevem

a palavra «estrela» e uma estrela, de súbito,

nos queima os dedos distraídos. Uma

vez esteve aqui um poeta. Escreveu

a palavra «labareda». E ainda hoje as manchas

do fogo sujam as paredes e os

mosaicos vidrados da sala de reuniões

do Conselho de Administração.

 

Uma leitura pública num café de Punta Umbría

 

Quando leio um poema em voz alta

sinto que as pessoas me olham

como se esperassem uma revelação.

Como se estivessem à espera dos milagres.

E hoje, finalmente, quase cedo à

tentação de explicar os mecanismos

dos milagres. Por exemplo:

eu posso fazer gelo escrevendo apenas

a palavra «gelo». E isso mesmo

faria neste momento

se não temesse que os mais distraídos

usassem o gelos nos copos

altos do gin tónico.

 

José Carlos Barros

Inéditos

Lidoaqui

 

  

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 22:45
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