25
Mai 09

 

 

LISBOA

 

De Lisboa recordo os jardins

sonolentos, as ruas tortuosas

do bairro de Alfama e a luz

secreta das tardes junto ao cais

onde juntos bebemos os movimentos da água.

E recordo as noites sem penumbra,

o mar azul, a rota dos comboios

que perdemos naquele junho radiante

e luminoso.

Hoje escuto o seu eco

enquanto a névoa flutua nas colinas

e rangem de saudade os carris,

a hera, os postigos e os fundos

de água entre sereias desaparecidas.

Não sei se o recordo ou somento esqueço

o peso intransitável das sombras.

Pois ainda que o tempo arraste para o nada

a juventude, a felicidade, os tesouros,

ainda que não volte jamais o paraíso,

será sempre primavera em Lisboa:

é que não vejo na memória nem nos seus mapas

esse ónus obscuro do regresso.

 

Sara Gutiérrez Caballero

Tradução de Tiago Nené

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 00:03
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa:

20
Mai 09

Se o teu olho é simples, todo o teu corpo será luminoso

 

Começa por atentar ao que se passa entre a urze e as abelhas

à doce árvore entre a terra e o céu.

Sobe às alturas das pedras nuas,

estão difíceis estes modernos tempos para a contemplação,

na rarefacção dos lugares teofânicos.

Toma nos lugares mais baixos a beleza

de uma azeitona no silêncio do meio-dia estival.

Contemplações insignificantes

contemplações mais magnificentes.

Depois deves numerá-las: a cerimónia.

Para que germinem no teu vaso de ouro

e sobre elas desça o orvalho e o perfume dos cedros.

 

Adelino Ínsua

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 10:37
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa:

17
Mai 09

 

 

INVESTIGAÇÃO FILOLÓGICA

 

Um dia destes chamo-te

E gastamos um momento para fazer amor.

A ver se é verdade isso que dizia Cernuda

De que os corpos fazem um ruído muito triste

Quando se amam.

 

Manuel Arana

in Adolescencia dos: poemas hormonados

Tradução de Tiago Nené

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 23:52
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13
Mai 09

ODE AO VINIL

 

Uma agulha suja

por muitos acordes

suicidas enche-me

de catástrofes

entre o sentido

e a dissimulação

do seu destino

 

Lá fora dançam impessoais

as personagens-fantasma

da poética mutilação

do eterno retorno

que lá dentro dança

fora de si

 

Espero-me em silêncio

tal anjo perdido

poeticamente distorcido

pela palavra

 

Espero-te ao espelho quebrado

sem nada para te dar

entre gemidos agudos e graves

na camisa de sete forças

da palavra

 

A. Dasilva O

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 10:27
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08
Mai 09

PÁSCOA BAIXA

 

Durante a manhã inteira a barba

ainda cresceu. O vórtice que me picava

ao fim de um dia de trabalho

já o posso adivinhar

neste círculo de flores.

O seu torso é imóvel. Nada

diviso a mover-se (um relâmpago das pálpebras?

o pensamento de um dedo?)

velo a hesitação da barba qual

néscio agarrando tempo.

Durante a manhã de março a

barba ainda cresceu

qualquer coisa dentro dele ainda

não queria morrer.

 

João Luís Barreto Guimarães

in A Parte pelo Todo

2009 – Quasi Edições

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 21:08
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07
Mai 09

Os noticiários da manhã

 

Os noticiários da manhã abriram com essa imagem

fabulosa: dois poetas construíam um edifício.

Não era um edifício abstracto. Não

era o utópico edifício do coração das obras.

Era um edifício verdadeiro: alicerces,

paredes, telhado; pedra, tijolos,

cimento. Em vez do exercício habitual

de poetas procurando destruir os edifícios

todos da cidade, um a um, disparando canhões

de pólen, estes dois poetas erguiam

um edifício verdadeiro, concreto,

tangível. E isto é de uma humanidade

comovente. E isto chego a pensar

que quase merecia um poema.

 

É verdade que sinto

 

É verdade que sinto um imenso desprezo

pelos poetas. Por todos os poetas.

Esses seres ignóbeis que escrevem

a palavra «estrela» e uma estrela, de súbito,

nos queima os dedos distraídos. Uma

vez esteve aqui um poeta. Escreveu

a palavra «labareda». E ainda hoje as manchas

do fogo sujam as paredes e os

mosaicos vidrados da sala de reuniões

do Conselho de Administração.

 

Uma leitura pública num café de Punta Umbría

 

Quando leio um poema em voz alta

sinto que as pessoas me olham

como se esperassem uma revelação.

Como se estivessem à espera dos milagres.

E hoje, finalmente, quase cedo à

tentação de explicar os mecanismos

dos milagres. Por exemplo:

eu posso fazer gelo escrevendo apenas

a palavra «gelo». E isso mesmo

faria neste momento

se não temesse que os mais distraídos

usassem o gelos nos copos

altos do gin tónico.

 

José Carlos Barros

Inéditos

Lidoaqui

 

  

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 22:45
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03
Mai 09

 

 

 

DENTRO DO AUTOCARRO

 

Dentro do autocarro

uma mosca

viajou connosco

desde a capital

da república

até à simples

capital de uma província.

 

Que será da sua vida

quando desça

e se encontre

tão sozinha e inválida

como os seres humanos

depois da queda?

 

César Actis Bru

(Santa Fe/Argentina)

Tradução de Tiago Nené

 

 

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 20:01
Canção:: Amália Hoje - A Gaivota
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