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Abr 09

A VIDA EM ESPIRAL

 

O amor é um orgasmo entre duas lágrimas

A lágrima é um lago rodeado de estertores

O estertor é um vulcão de vento

O vento é o caminho dos cantos

O canto é um mistério da boca

A boca é um abismo antes do peito

O peito é outro abismo entre dois sangues

O sangue é o motor que nutre o acto

O acto é uma dança contra o tempo

O tempo é o que mede espaços até então não numerados

A cabeça é um nó sobre o pescoço

O pescoço é como um istmo entre duas selvas

A selva é o ancestral do deserto

O deserto é um corpo já bebido

Beber não apaga o fogo na consciência

A consciência é outro relógio de areia

A areia faz do cacto um rei antigo

O antigo nos modela como a uma criança

Uma criança é o passado dos corpos

E o corpo é um combate que se perde

A vida é um espaço exacto entre duas mortes

A morte é um espaço exacto entre dois fogos

O fogo é um espaço exacto entre dois frios

O frio é uma chama abaixo de zero

O zero é o silêncio antes do número

O número é o verbo matemático

A matemática é o cálculo da realidade

A realidade é o único incrível

O incrível é o que não podemos

E o que não podemos é o que queremos.

 

Patricio Manns

Tradução em português brasileiro: Thiago de Mello.

Adaptação ao português europeu: Tiago Nené

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 15:00
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