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Abr 09

Grand Hotel København, 326

 

Onze horas: a tua mão adormecida marca

agora um conto de Karen Blixen

- veremos em breve essa casa cinzenta,

em Helsingør - enquanto eu ouço uma sonata

de Scarlatti tocada por Scott Ross

e sei que também isso ficarei a dever à Dinamarca.

 

Apontamentos culturais? Podem até chamar-lhes

assim, ignorando a áspera nudez da voz,

o grito comum que viemos suspender aqui.

Lá em baixo, por exemplo, os funcionários do

restaurante, terminado o serviço, abrem

a terceira garrafa de champanhe e fumam

ruidosamente, como se amanhã não existisse.

 

A questão, no fundo, é apenas esta: há momentos

em que a vida nos parece quase bela,

escolhos onde embatem as mais íntimas certezas.

 

Talvez adormeçamos lado a lado,

de costas para a morte, e haja corsários ao fundo,

um mar de gelo protegendo-nos da noite.

 

 

All you need is love 2

 

Mas não é bem assim, dir-se-á.

Vinte e seis séculos de lírica

deviam, pelo menos, provar o contrário

- na hipótese argilosa de esses

cadáveres afamados terem alguma coisa

a dizer-nos quanto ao melhor método

de atravessar ruas superpovoadas.

 

Onde eu te vi passar, meu amor,

com o lenço vermelho, os cabelos

mais curtos e as pernas que embora

tenazes herméticas te davam - por

assim dizer - um ar sofrível de corpo.

 

Não sei porque é que reparei nisso,

logo eu, logo hoje. Simples distracção da morte

- a reinvindicar uma anatomia, e paz.

 

 

Poemas de Manuel de Freitas

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 08:55
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