16
Out 08

Azul. E nesse azul uma sensação

de verde, as cinzentas calotas de nuvens

amparadas contra o ar, como se

na ideia da chuva

o olhar

pudesse domar a fala

de um dado momento


 

na terra. Chamem-lhe o céu. E assim

descrever

o que quer

que vemos, como se nada mais fosse

que a ideia

de algo que tínhamos perdido

cá dentro. Podemos começar, pois,

a recordar


 

a terra dura, as estrelas

dardejantes de sílex, os undíferos

carvalhos, soltos

pelo resfolegar do vento, e assim até

à mais ínfima semente, descobrindo

o que sobre nós cresce, como se

por causa deste azul pudesse haver

este verde


 

que alastra, nisto inumerável

e milagroso, o mais silente

momento do verão. Sementes

falam deste ciclo, definem

o lugar onde o ar e a terra irrompem

nesta profusão de acaso, as aleatórias

forças da nossa falta de conhecimento

acerca daquilo

que vemos, e meramente falar disso

é ver

como as palavras nos falham, como nada sai bem

no dizer disso, nem sequer estas palavras

que sou levado a dizer

em nome deste azul

e deste verde

que se dissipam

no ar do verão.


 

Impossível

Continuar a ouvi-lo por mais tempo. A língua

para sempre nos aparta

de onde estamos, e em parte alguma

podemos repousar

nas coisas que nos são dadas

a ver, pois cada palavra

é outra parte qualquer, algo que se move

mais depressa que o olhar, mesmo

enquanto se desloca este pardal,

voluteando rumo ao ar

onde não tem lar algum. Não acredito, então,

em nada


 

do que te possam dar estas palavras,

e contudo ainda posso senti-las

a falar através de mim, como seja

isto somente

o que desejo, este azul

e este verde, e dizer

como este azul

se tornou para mim na essência

deste verde, e mais do que a pura

visão disso, quero que sintas

esta palavra

que o dia inteiro viveu

dentro de mim, este

desejo de nada


 

que não o dia em si mesmo, e o modo como cresceu

dentro dos meus olhos, mais forte

do que a palavra de que é feito,

como se jamais

outra palavra


 

me pudesse amparar

sem se quebrar.


 

 

Paul Auster

(in Poemas Escolhidos . tradução de Rui Lage - Quasi)

postado pelo Casa dos Poetas às 21:56
Canção:: mazzy star, among my sawn, 'flowers in december'
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