20
Abr 09

No Ano Internacional da criança

Dizia aqui há dias, não sei quem,

Com sorrisos de abastança e falas de desdém

- Que fome impertinente, que gula subversiva!

E fogueiras ardem e desmascaram-se folias.

Sobre um mar negro onde a loucura é diva

Desfraldam-se guerreiras melodias.

Boiardos sublevados cospem no cadáver de Lenine

Enquanto uns comem passas de Corinto

No Palácio de Inverno há biombos de absinto

Para que a matula, por detrás, urine.

Reuni a Geral Assembleia da generalizada carência

Vós sois orgulho e gáudio de toda a nossa ciência!

Párias do Bangla Desh

Paus de Arara do Nordeste

Kampucheias peregrinos

Bantustões das podres roças

Sentam-se com um sorriso agreste

E mães mostram meninos com um ar exangue.

Depois entra o Biafra a cantar hinos

E ostentando as mãos cheias

De pistolas disparam – bang, bang –

Vestidos de cowboy, sem sapatos nem meias.

«Alto lá, esta lata está estragada!»

Grita descomposto Hamlet na televisão

Olhando a caveira do pai mal embrulhada.

Bob Dylan suspira que nos States se desterra

E pelo sim, pelo não,

Investe em acções numa fábrica de guerra.

Porco, sujo, quero-me porco!

Poderia Maiakovski ter gritado

No auge do desespero e da desdita

Porque até o modernismo se consome,

Tem a modernidade que tem a própria fome dita.

Ai Marinetti! Suspira o Duce p’ra Dannunzio,

E o Che faz tiro ao alvo nas palavras, presas numa guita,

Dos poetas de raras sensações.

E «um grande lagarto verde com olhos de pedra e água»

Vende castanhas a dez tostões

E puxa fogo aos rútilos pinhais da mágoa.

Entretanto, ò suprema das venturas,

É Natal e isso se alcança da televisão a cores

Mas um hereje desdenha das alturas

Porque adormece mal,

Porque não tem boa-vontade

De se deitar com fome

De amanhecer com dores.

E enquanto se entende a doce melodia

O Papa no fervor da pregação

Escorrega e cai com palavras ímpias

Sobre a pia.

Ai João Paulo cinquenta vezes o negaste!

Estar vivo é ferver em água benta

E tudo é um paiol ou uma veia

Que ao pulsar fatalmente rebenta.

Por isso sou um louco à margem da vida

Com os cabelos da alma desgrenhados.

Estou convosco ò miseráveis

Na vala comum dos deserdados!

E, ai de mim, que vaga fronteira!

Um instante de vida é tempo ganho à morte

Pois morrer aos quinze anos ainda é ter sorte.

Por isso Índia, efémera e vedântica

És santa e luminosa

Na cópula frenética

Mas, perdoem-me Aurobindo ou Ramdas,

- Tudo será Maya – que visão esquelética!

À folia, à tripa forra!

Viva o coito de barraca

Com os incautos a olhar

E a chafurdarem, alegremente, em caca.

Vejo tudo isto – constatação bem velha

E Van Gogh doido de amarelos

Corta uma orelha.

Olho distraído o meu umbigo

Tenho nojo da minha saciedade.

A rainha de Inglaterra perde a compostura

E masturba-se com banana madura

Inaugurando um lar para a terceira idade.

Wenn ich eine Schwalbe wäre

E um miúdo maltrapilho risca-me o carro

E eu fico de olhar turvo e com um instinto bera.

Ò portas cintilantes sobre a madrugada

Ténues vestígios sobre a fronteira da vida

Aparas da morte debruçadas sobre o nada,

Tão perto, tão perto…

Coexistem alegres comemorações sobre o corpo de um burro

E de M=mc2 um vago cheiro a esturro.

Um hipopótamo vestido de Tio Sam

Vai direito à lua todo cio.

Bandeirinhas se agitam em todas as nações

Ritmos de can-can

Alegres canções

E eu penso: A puta que os pariu!

E ardo como um incêndio

No manicómio da história

E é noite de Natal,

Alles Schlaft,

E – Tudo brilha em glória.

Num lance de teatro

Cristo foge arrependido pela porta do cavalo.

Torquemada murmura: meus irmãos!

A oposição berra: não me calo!

E um Pilatos qualquer defeca aliviado

Na bacia em que lavou as suas mãos.

- Canso-me enfim. Quero dormir sobre este pesadelo.

Um instante de repouso

E que haja aqui e agora um velho do Restelo,

Que nos incendeie ou nos roube as esperanças

E sendo das Fúrias o seguro dono,

Nos lance a sua maldição:

 

Gente sem sentido,

Ou voltais de novo a ser crianças

Ou tendes de perder, para todo o sempre, o sono!

 

Adalberto Alves

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 10:19
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