09
Abr 09

Elogio do Dilaceramento

 

Esta idade não é

não pode ser o tempo da felicidade.

Apesar de ferido de morte, o animal

recusa-se a perecer.

Exacerbam-se o desejo e a posse. Vivo

entre formas tenebrosas e densas

alérgicas à luz. Permanentemente insatisfeito

perco-me nas coisas – just enough

is never enough .

À lentidão e meio-termo da penumbra

prefiro o sol do meio-dia

as promessas das trevas e

o ritmo endiabrado do efémero.

Os amigos são raros

as esquinas sucedem-se

e tudo isto ao mesmo tempo

atemoriza-me e atrai-me...

 

De sul norte este e oeste

divergem os caminhos que me afastam

do meu secreto centro.

Esses caminhos são fantasmas do passado.

Labirintos. Ajustes de contas sempre adiados.

O que fui e não consigo deixar de ser;

noites brancas e

dias negros, cada ínfimo instante do mundo...

tento esquecer.

Tento esquecer e aproximar-me do centro

mas a memória trai-me:

- continuo a ignorar

quem ou o que

se reflecte

no espelho...

 

José Almeida

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 20:04
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