18
Mar 09

DESCRIÇÃO DA MENTIRA

 

Que verdade existe no ventre das pombas?

A verdade está na língua ou no ventre dos espelhos?

A verdade é o que responde às perguntas dos príncipes?

Qual é então a resposta à pergunta dos oleiros?

 

Se levantares uma túnica encontrarás um corpo mas não uma pergunta:

para quê as palavras enxutas em cíngulos ou as construídas em esquinas imóveis,

as convertidas em lâminas e, em seguida, despojadas e ávidas?

 

Ou melhor: alguma vez fui cínico como asfalto ou pelame?

Não se trata disso, apenas que o asfalto possuía a minha memória e as minhas exclamações relatavam a perdição e a inimizade.

A nossa sorte é difícil reclusa na beladona e nos recipientes que não devem ser abertos.

Sujo, sujo é o mundo, porém respira. E tu entras no quarto como um animal resplandecente.

 

Depois do conhecimento e do esquecimento que paixão me concerne?

Não hei-de responder mas sim reunir-me com tudo o que está oferecido nos átrios e na distribuição dos resíduos,

com tudo o que treme e é amarelo debaixo da noite.

 

Antonio Gamoneda,

In Descrição da Mentira

Quasi

Prémio Cervantes, 2006

tradução de Vasco Gato

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 06:23
Canção:: Radiohead- Wolf at the door
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