23
Fev 09

MARGEM

 

Dantes, quando pousavas

Em qualquer beira, como pássaro

Magnífico;

 

E o teu corpo, os seus poros,

Atraíam as ondas,

Os uivos litorais dos bandos;

 

Dantes, quando era possível

Cantar uma ária inteira

Caminhando sempre na mesma praia

Sem vir ninguém,

 

A não ser o inverno, as suas

Grandes ondas gordas, azuis, paradas;

 

E as rochas em que te sentavas

Em risco de rasgar a pele nas asperezas,

Eram também azuis;

 

E o teu olhar puxava a camisola para baixo,

Como se fingisses proteger-te da nudez

Perante um eu, um mim, que de facto

Acalentavas já dentro de ti.

 

Dantes, quando eu olhava os teus pés

Como um sinal da fragilidade em que assentava

Toda a tua arquitectura,

 

E te dizia: é bom que eu os veja já com saudade,

Para não ser mais tarde surpreendido;

 

E mais tarde apenas me repetir

Quando te vir de novo pousar sobre a falésia

Como um pássaro, para me visitares

 

E, tal como hoje, não me dizeres nada:

 

Porque, contra tudo o que seria de esperar

Me possuis, e a tua presença bate aqui —

 

Como uma maresia distante, como uma praia

À noite, para um cego que não sabe

O que vai acontecer,

 

Mas no entanto caminha

Na aspereza das rochas,

 

Fascinado pelo iodo, pelo ruído

De um outro mundo

Que vem dar a este limite:

 

O tacto, as nádegas sobre a rocha.

Esse conhecimento.

 

Vítor Oliveira Jorge

(vencedor do VIII Concurso de Textos de Amor)

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 12:00
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