20
Fev 09

Ele, o Sr. Pessoa, acolhia bem a vida. Vamos escrever com letra grande:

amava e era sensível à Vida, e se ela assumia um semblante

ele ficava contente por saudá-la e tinha o quarto limpo expressamente

para acolher a deusa - mas não tentava prendê-la ou demorá-la.

Há homens que se portam como se a vida fosse uma jovem apetecida:

armam ciladas, fazem negaças, exibem-se se sabem que ela os vê.

O Sr. Pessoa por seu lado lidava com a vida mais como vizinho:

ela nunca andava longe e ele tinha a certeza de a encontrar às vezes.

Costumavam falar na rua, cavaqueio sem outras intenções,

às vezes ela passava lá por casa e então durava mais o convívio,

ela era visita, ele anfitrião, e o diálogo parecia mais estruturado

depois, já de saída, mais um sorriso, cinco minutos de conversa à espera do carro.

O grande desejo do Sr. Pessoa era só que a Vida o aceitasse

como presença sem pretensões, amante que não ousava possuí-la:

ficar ali, quieto, confiante, até ao dia de irem buscar o seu caixão.

  

JOHN WAIN

 

in Reflexões sobre o Sr. Pessoa / Thinking about Mr Person, tradução de João Almeida Flor, edições Cotovia, 1993 - Fenda edições, 1981

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 08:00
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