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Dez 08

Duas vezes nada

 

"É assim, amiga. Encontramo-nos

quando calha nos bares de antigamente,

deixando que sobre o tampo azul

das mesas volte a pousar

um baço cemitério de garrafas.

 

Constatamos o pior, os seus aspectos.

Corpos e livros que foram ficando

por ler na voracidade da noite de Lisboa.

De facto, crescemos em alcoolémia,

acordamos tarde, em pânico,

e perdemos os dias e os dentes

com uma espécie de resignação.

Não temos, ao que parece, serventia.

 

Sorrimos um pouco, ao terceiro

gin, como quem renasce para a morte,

seus gestos de ternura ou de exuberância.

Talvez tenhamos calculado mal

o ângulo da queda, esta vitória

sem nobreza dos venenos todos.

 

Mas agora é tarde. Tudo fechou

para nós, para sempre. O amor,

o desejo, até o onanismo da destruição.

Antes de procurares a esmola

do último táxi, fica esta imagem

parada, a desvanecer-se

no frio mais frio da memória:

 

não dois corpos sentados a trocarem

medo, cigarros e palavras póstumas,

mas duas vezes nada, ninguém,

o silêncio da noite destronando

as cadeiras onde por razão nenhuma

nos sentámos. Os anos, amiga, passaram."

 

Manuel de Freitas

Assírio & Alvim,

Lisboa,

2002

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 13:00
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