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Dez 08

Intumescência

 

Só a uma cerejeira coberta de frutos brilhantes e carnudos, vermelhos na sua tonalidade prestes a rebentar de dentro de si mesma, só a uma árvore no pleno esplendor da sua gravidez, só a uma estação alta situada na mais alta montanha, se podem comparar uns lábios.

 

Frutos vermelhos colocados uns ao lado dos outros, suplicando a poucos milímetros uns dos outros: misturem-nos as polpas! Desfaçam-nos o brilho, o insuportável contorno da perfeição, este desenho ardilosamente concebido para ser imagem, este desejo tornado eterno na proliferação dos frutos, no cume das árvores, na extrema necessidade das polpas se abrirem, se derramarem.

Comam-nos, desfaçam-nos, desfigurem-nos, assassinem-nos, pedem os lábios na projecção muda do seu fulgor, índices da glória, velas tensas até ao máximo sustentável das gáveas.

Meu deus, dizem os mortais que passam sob as estações assim floridas, ao lado das montanhas assim erguidas, roçando os ombros no brilho audacioso da Realidade, como vamos poder viver depois disto, como vamos sobreviver às imagens?

Custa morrer, custa desaparecer da terra da alegria, aquela onde florescem campos imensos de árvores de fruto, polpas se espalham na atmosfera, e raparigas saem de dentro de um gelado cor de rosa para dizer: olhem! aqui estamos, irredutíveis como todas as perguntas, vejam o violeta, o vermelho, o grená, vejam as cores, vejam os brilhos, vejam os lábios. sintam este ardor pronto a rebentar. esta torrente que a imagem conseguiu conter até agora à sua superfície.

As raparigas, sabe-se, são dos seres mais cruéis. Atiram para a frente a sua juventude, a sua incrível florescência. E comem gelados, devagar, como quem pinta os lábios, sempre devagar, num estranha maquilhagem que sobe sempre ao alto das mesas, mostra algo de interior, de íntimo, e no entanto é só uma superfície, um relance, uma cerejeira toda florida e toda fosforescente na sua intumescência.

 

Vítor Oliveira Jorge, 2008

 

Para o livro “ELECTRI-CIDADE”

 

 

Vítor Oliveira Jorge é professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, é arqueólogo, poeta e ensaísta.

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 15:43
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