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Dez 08

Aprendiz de viajante

 

Um dia li num livro:

«viajar cura a melancolia».

 

Creio que, na altura, acreditei no que lia.

Estava doente, tinha quinze anos.

Não me lembro da doença que me levara à cama,

recordo apenas a impressão que me causara,

então, o que acabara de ler.

Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes

e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto,

persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.

 

A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar.

Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos,

mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vaga noite...

Avancei sempre, sem destino certo.

Tudo começou a seguir àquela doença.

Era ainda noite fechada. Levantei-me e parti.

Fui em direcção ao mar. Segui a rebentação das ondas,

apanhei conchas, contornei falésias; afastei-me de casa o mais que pude.

Vi a manhã erguer-se, branca, e envolver uma ilha;

vi crepúsculos e noite sobre um rio, amei a existência.

Dormia onde calhava; no meio das dunas, enroscado no tojo,

como um animal; dormia num pinhal ou onde me dessem abrigo,

em celeiros, garagens abandonadas, uma cama...

e quando regressei, com a ânsia do eterno viajante dentro de mim.

Hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no decorrer da vida,

se despojou das coisas materiais e das tarefas quotidiana.

Aprendeu a viver sem possuir nada, sem  um modo de vida.

Caminha, assim, com a leveza, de quem abandonou tudo.

Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma,

no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.

A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que os outros viajantes,

ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.

O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo é único,

não se confunde com nenhum outro.

Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos,

purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil;

e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra.

O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz,

os astros, as águas, os peixes e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas.

Aprendeu a nomear o mundo.

Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada;

sabe que o homem não foi feito para ficar quieto.

A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue,

mata-lhe a alma - estagna o pensamento.

Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água.

Vive ali, e canta - sabendo que a vida não terá sido um abismo,

se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele,

o una de novo ao Universo.

 

Al berto

em Anjo Mudo

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 14:00
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