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Dez 08

Antes que seja tarde, devo dizer que considero o acto de escrever pouco saudável.

E gostaria que o tom fosse considerado como um desabafo, e não confessional.

Decorrido meio século de existência, aprendi a coabitar comigo mesmo.

Quer essa relação se assuma como um comovido flash back, ou um severo ajuste de contas.

Felizmente, sobra-me mais tempo para esquecer do que para emendar.

Decorrido meio século de existência, li e escrevi o suficiente para considerar a escrita – como qualquer outro acto criador – antropófaga até à vileza.

Ninguém se surpreenderá se afirmar que a minha geração superou esse objectivo.

Excedendo-se no show off, ou no striptease onanista, onde um predisposto auditório se reconhece e excita.

A leitura das gerações que me precedem, em nada tem contribuído para perturbar, ou abalar, este assumido preconceito.

Os Pessoa, Kerouac, Ginsberg, Hemingway, Michaux, Aquilino, Cardoso Pires, o exaltante Saint-John Perse, ou o inevitável Herberto, todos me recusaram uma escrita límpida e saudável.

Até mesmo em O Sorriso aos Pés da Escada, o único Miller que conservo, a beleza é perversa e sublinhada por um fio de pus.

Todos eles me envenenaram uma predisposição que começou por ser saudada na escola, e onde a família se conformou em depositar esperança de que continuasse a ser bonita.

E, sobretudo, que tivesse futuro.

Antes que seja tarde, devo esclarecer que ainda hoje tenho relutância em considerar o futuro, e que me reservo o maior desprezo pelo presente.

Sem pretender a honestidade que, dificilmente, reconheço nos outros, arrisco que a escrita – como qualquer outro acto criador – precisa de vítimas.

E alimenta vítimas.

 

 

Jorge Fallorca in Longe do Mundo

(Frenesi, Maio de 2004).

 

Jorge Fallorca é um poeta natural de Mortágua e nasceu em 15 de Junho de 1949. Foi radialista e jornalista e presentemente exerce a actividade de tradutor. Vive no Algarve.

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 10:00
Canção:: AC/DC - Ballbreaker
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