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Dez 08

REALPOLITIK

 

I

Este poema é uma introdução à teoria geral dos sonhos numa cama de casal onde dormem duas pessoas. É um ringue de hóquei em patins, uma casa de praia onde se esqueceu um casaco que tanta falta nos faz no início do Inverno. É um bilhete postal, uma encomenda esquecida. É o aquecimento central do centro de saúde do concelho de Torres Vedras, um livro que ficou perdido entre o pedido de uma criança ao Pai Natal e a memória de um homem que tem muito em que pensar. A data deste poema não existe – é um poema de todos os dias a passar no calendário automático do nosso
computador pessoal, a ranhura onde deitamos moedas de cinquenta cêntimos no parque de estacionamento municipal, o dia em que nos pediram para nos apresentarmos no Quartel da Ajuda para servir, militarmente, o país. O poema é daí, desse mesmo lugar onde talvez já nos tenhamos esquecido de que a vida é mesmo assim, feita de torrentes de palavras a povoarem-nos o cérebro e a boca, com pequenos intervalos em que nos deixamos adormecer em frente a uma página de publicidade publicada num jornal nacional.


II

Estava capaz de escrever uma carta aos Coríntios esta manhã, ainda não tinha saído da cama e a rádio estava ligada na Antena Um, as notícias do dia anunciavam um ministro a fazer contas aos cêntimos que cada pensionista pode receber por mês a somar à sua pensão, de maneira a que não se descontrole na posse exagerada de umas moedas pretas levantadas na última semana do mês numa estação de correios sobrelotada com livros e conjuntos de canecas com design made in bairro alto. Estava capaz de comprar, e logo em seguida comer, uma dúzia de gelados Olá e depois ir correr durante uma hora em volta do relvado do jardim onde anunciam, para breve, a construção de um aglomerado habitacional com preocupações ambientais e última geração no que à tecnologia pode dizer respeito a forma como cada um gosta de estender as pernas sobre a mesa de apoio na sala da televisão ou sobre o gozo que me dá sentir o chão frio da casa-de-banho quando acordo a meio da noite e vou urinar o que parece ter restado de impurezas no interior indigesto do meu corpo. Estava capaz de diversas coisas no preciso momento em que, à saída da pastelaria, um homem deitou uma ponta de cigarro ao chão e este poema começou a nascer.


III

Naquele tempo eu costumava passar várias horas na biblioteca municipal e entre as prateleiras encontrei muitas vezes pequenos recados escritos por outros frequentadores
em que estes pretendiam ter lido determinado livro enquanto algum familiar anotava, nos limites das páginas, as compras a efectuar no hipermercado que fica nos limites da cidade ou o horário da ida ao oftalmologista que dá consultas numa clínica privada substancialmente subvencionada ora pela ausência de oferta da parte do estado ora por manifesta impossibilidade de atender um cliente em tempo útil de vida (significando aqui “tempo útil de vida” aquele momento na vida de alguém em que esse alguém está
doente até ao retomar daquele outro estado em que esse mesmo alguém deixa de estar
doente). Naquele tempo eu já era capaz de identificar as várias cores das etiquetas identificativas das temáticas, bem como percorrer mentalmente, desde a porta de entrada até à prateleira certa, o caminho que alguém deveria fazer para encontrar o livro ou tipo de livro que procurava e irritava-me muitas vezes por haver outros frequentadores dessa biblioteca que pareciam ser mais rápidos do que eu a terminar o seu almoço e assim se exibiam em algumas das mesas de leitura, usurpando o jornal desportivo por muito mais tempo do que aquele que parece ser o tempo regulamentar de leitura do mesmo.


IV

Procurei sempre estar à parte naquilo que diziam ser os encontros amigáveis entre os consumidores de produtos culturais, principalmente nas horas em que procuravam eleger, de entre os participantes, alguns nomes que pudessem compôr a Comissão Administrativa dessa sociedade para o biénio seguinte - sentia-me pouco sociável e preferia passar a maior parte dos meus dias recostado a um cadeirão velho em frente ao computador onde tentava estabelecer alguns contactos com as regiões do mundo mais inacessíveis, de modo a ser possível ter uma vida cheia sem correr o risco de alguém nos vir bater à porta para pedir um raminho de salsa ou a convidar-nos para um jantar de aniversário no restaurante chinês em conjunto com mais de uma dezena de pessoas, usando para o efeito mesas redondas com prateleira giratória ao meio e uma sensação de náusea crescente perante as conversas inócuas que as pessoas mais mesquinhas costumam transportar consigo para festejos como este. Procurei estar à parte e o que posso concluir é que falhei, falhei de uma forma que só aqueles que insistem na repetição de actos idiotas podem falhar. Desde que me foi possível ver ao espelho, sei de fonte segura o exacto tamanho do meu falhanço. E então verificou-se um surpreendente aumento de peso, durante uma noite, de tal forma que quando nasceu o sol, nada me servia.


V

Na estrada para a Babilónia havia um ramal onde, todos os dias, centenas de operários
pareciam descansar de todas as maleitas do mundo, como dores de costas provocadas pelo transporte de pesos sobre-humanos, ossos partidos por colchões sem molas, dentes cariados devido a greves de cozinheiros de cantinas de fábricas, bolhas nos pés por causa dos infindáveis jogos de futebol e outras competições internas da organização de trabalhadores afectados pelos males do mundo. Ao passar por lá, senti-me de certa forma atraído pelas suas queixas e lamentos e sentei-me a descascar uma maçã que alguém me disse ter sido colhida do jardim onde Eva conversou sobre a novela das sete com uma serpente. Deus deve odiar telenovelas – pensava para com os seus botões um operário de óculos graduados. Na estrada para a Babilónia havia um outro ramal onde aprendizes de bibliotecários aprendiam a tabuada em jeito de fórmula de codificação bibliográfica e habituavam-se a conhecer conceitos por intermédio de conjugações numéricas cruzadas com cores de uma paleta desprezada por vários aspirantes a pintores oficiais do regime. Esses aprendizes de bibliotecários viriam, mais tarde, a tomar as rédeas da cidade e a tentar, por intermédio das mais hediondas práticas, transformar toda a população em caracteres organizados por números e cores. Perante isto, a intervenção dos Estados Unidos era inevitável.


VI

Até que chegou a hora de alguns dos nossos partirem Europa fora a fazer figura de gente já que por cá não faziam melhor que figura de parvo, e as populações desceram às ruas e começaram a aplaudir a caravana, que enquanto não chegou a Elvas era composta por todo o tipo de gente, presidentes de junta de freguesia, membros suplentes das listas de candidatos às assembleias municipais, jovens militantes empunhando bandeiras, amigos e familiares nada próximos dessa gentalha, criados de servir e funcionários do estado, vários tipos de representantes de empresas multinacionais com interesses em pequenas parcelas de terrenos que, por artes de mágica imprevistas, acabam por originar grandes urbanizações ao serviço dos vários eleitos pelo povo. À passagem por Badajoz, já o cortejo se fazia de taxi com um elemento da Guardia Civil à frente, por mero acaso de cruzamento de destinos entre o almoço desse senhor e a fuga dos nossos. Até que chegou a hora em que aqueles que
ficaram, não já na ocidental praia lusitana, mas naquela terra de ninguém com vista para Espanha, voltassem para trás e às costas carregassem inúmeros cestos de fruta normalizada, jornais emprestados para embrulhar relógios contrafaccionados em Marrocos, uma fotografia a cores do Rei de Espanha em pose de estado, um memorandum da secreta americana sobre o comportamento dos nossos aquando da Conferência das Lajes e um treinador para o Benfica.


VII

Não sei, nem nunca saberei, contar sílabas pelos dedos ou perceber os sons do ritmo que um verso clássico esconde. Tenho dúvidas na distinção de um verso com um fado alexandrino. Recorro demasiadas vezes a repetições de ideias, talvez da mesma forma como no meu país tudo é sempre da mesma maneira. Revelo dificuldades na dicção de palavras acentuadas e quase nunca intervenho em sessões onde não me possa inscrever previamente. Não sigo os canones. Não sigo a banda. Não fico na ponte a atirar pedras para aqueles que aceleram na auto-estrada. Tenho algum gozo no descobrir de estradas secundárias. Vejo mal de noite. Vejo mal de dia. Sem óculos, não vejo nada. Não sei, nem nunca saberei, muita coisa acerca daquilo que não me interessa. Não sou curioso, não tenho a pretensão de mandar em ninguém. Fujo o quanto posso de quem me queira colar etiquetas. De quem me queira rotular a existência, a palavra, o poema, a preferência por determinado café na hora em que saio de casa depois de jantar. Este poema é uma maneira de o dizer em jeito de metáfora, em jeito de poema. Em jeito de palavra que não sei como controlar. Em jeito de conjugação de frases em forma de versos e versos em forma de caminhos que parecem querer chegar a algum lugar. Em jeito de algo que não se pode calar. Este poema é uma introdução à teoria do nunca teorizar sobre aquilo em que se está demasiado afundado. Como eu, aqui. Eu, eu próprio. Nesta vida.



Luís Filipe Cristóvão
poema vencedor do Concurso Arte Jovem 2008

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 16:00
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