28
Nov 08

OMNIUM SANCTORUM

 

Por vezes, as sombras jorram-me dos ouvidos

E inundam-me a face, escalpelada, sem máscaras

Que a protejam da chaga interior.

O véu de Maria Madalena encobre-me o coração

Como tempestades num mar encarcerado.

 

Depois, guindastes de céus estranhos elevam-se

Das trevas, são curto-circuitos no vazio.

 

 

RITMO COMPULSIVO

 

Um tremor de terra

nos ouvidos,

o seu ritmo tarso

na pele que se eriça,

o gesto que me faz ser

no meio dos cacos

 

Rostos

rostos obscuros

que se desfazem,

à minha volta,

contra os muros gelados

das facas no peito

 

O corpo esquartejado,

à beira da praia,

uma armadura de vazio,

o mundo lá dentro

como um mapa de caranguejos

ou bocas que expelem fogo

 

Saliva em brasa

 

Lagos gelados

quebrando-se sob o peso

da obsessão

do explorador nocturno,

 

na ânsia da bússola acesa,

no seu desvario,

no eritema da máscara

 

ARTE POÉTICA

 

Nos bosques das

madrugadas do verão

colhes nevoeiros

É que o poema também

precisa disso

para que o verso

tenha dureza e elasticidade

 

Depois, retesas o arco

e o horizonte vibra em

suas etéreas arcadas

A liberdade é agora uma

antiga praça

Ao centro, um fontanário

e sorridentes crianças

 

 

Luís Costa é um poeta que muito apreciamos. Aconselhamos vivamente uma visita ao seu reino da criatividade.

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 15:00
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