22
Nov 08

Quando o verde se mostrava

 

entre os verdes, em busca de Guillelmo Velez

 

E de verde se vestiu a madrugada. E a estrada era o verde

e era a entrada por onde o verde corria por fora da estrada.

Então o verde cansou-se e mudou-se de amarelo como farpela

que enrodilha o diário com o medo de se transformar em contrário.

E já não havia verde - o magenta magoou-se no lápis de pastel:

estava a sanguínea na pausa do tempo e não havia tempo,

nem amarelo, nem magenta. Apenas a madrugada cantava

e o verde voltava à madrugada. E já não era silêncio.

E já não era amanhã. E já não era o vício de cruzar as pernas,

de se oferecer como pélvis ao sacrifício de uma cama manchada:

e o verde descansava de ser verde. Era árvore. Era parede.

Era pénis entre as tetas do tempo. Era o verde que penetrava

por orifícios onde o som refulgia. E era memória. E era dia.

E era ouro quando o cacau mergulhava por dentro da estrada

à entrada da noite. E já não era silêncio: era amanhã, o corpo

aberto em grito de infinito. E o ouro era verde como um suicídio,

mas a corda quebrava, a noite quebrava, o verde cobrava o vento

que se desfazia em tempo, que se desfazia em água. E inundava

a estrada que era verde porque a vida era verde. Era verde e cantava.

 

 

Carta de saudade ao amigo Fernando Pessoa

 

meu caro fernando: ainda me lembro

do charro que bailámos no atelier

- arrastavas-te com o pesado arreganho dos cartazes

e a minha mente era tômbola até eu dizer

nunca mais. eu tinha o entusiasmo das verduras

mergulhado na tabacaria mas recusei

atirar-me da janela como vítor fez

quando te descobriu (deixou recado: já não há

mais nada para dizer). entretanto passaram

oceanos e os dias incharam de velhice

(confesso, álvaro: estou velho) mas continuei

pronto para viver olhando o mundo

embora incapaz de fazer o pino: e vieram

outros amigos (o tzara, o apollinaire,

o manuel maria, o drummond, o craveirinha, o vário)

que por aqui passaram

e agora confraternizam contigo

no lugar das coisas

- suponho que não desistiram de escrever poesia

(os poetas nunca desistem). quando eu aí chegar

quero ler esses poemas e escrever convosco

um cadáver esquisito. daqui levar-te-ei chocolates

para adoçar as bocas amargosas das vergonhas

com a metafísica da esperança e contar-te-ei

como os teus direitos autorais enricaram

familiares que te chamavam pobre diabo

e nunca te leram antes de saberem

que as gerações te amavam. depois leram-te

e fingiram perceber.

ah, fernando: rir-te-ás deste mundo.

 

Nuno Rebocho é escritor e jornalista. Apesar de ter nascido em Queluz, em 1945, viveu toda a sua juventude em Moçambique. Tem muitos livros publicados de poesia, crónica e investigação histórica, estando presente em diversas colectâneas e antologias publicadas em Portugal, Espanha e Brasil. É chefe de redacção da Informação da RDP-Antena 2.

 

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 15:00
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