05
Nov 08

A CAMÕES

 

Ai do que a sorte assinalou no berço

Inspirado cantor, rei da harmonia!

Ai do que Deus às gerações envia

Dizendo - vai, padece, é teu fadário;

Como um astro brilhante o mundo o admira,

Mas não vê que essa chama abrasadora

Que o cerca d'esplendor, também devora

Seu peito solitário.

 

Pairar nos céus em alteroso adejo,

Buscando amor, e vida, e luz, e glórias;

E ver passar, quais sombras ilusórias,

Essas imagens de fulgor divino:

Tais s o vossos destinos, ó poetas,

Almas de fogo, que um vil mundo encerra;

Tal foi, grande Camões, tal foi na terra

Teu mísero destino.

 

A cruz levaste desde o berço à campa:

Esgotaste a amargura ate às fezes:

Parece que a fortuna em seus revezes

Te mediu pelo génio a desventura.

Combateste com ela como o cedro

Que provoca o rancor da tempestade,

Mas cuja inabalável majestade

Lhe resiste segura.

 

Foste grande na dor como na lira!

Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto?

Um anjo viste de celeste encanto,

E aos pés caíste da visão querida...

Engano! foi um astro passageiro,

Foi uma flor de perfumado alento

Que ao longe te sorriu, mas que sedento

Jamais colheste em vida.

 

Sob a couraça que cingiste ao peito

Do peito ansioso sufocaste a chama,

E foste ao longe procurar a fama,

Talvez, quem sabe? procurar a morte.

Mas, qual onda que o náufrago arremessa

Sobre inóspita praia sem guarida,

A morte crua te arrojou a vida,

E as injúrias da sorte.

 

De praia em praia divagando incerto

Tuas desditas ensinaste ao mundo:

A terra, os homens, 'té o mar profundo

Conspirados achavas em teu dano.

Ave canora em solidão gemendo,

Tiveste o génio por algoz ferino:

Teu alento imortal era divino,

Perdeste em ser humano:

 

Índicos vales, solidões do Ganges,

E tu, ó gruta de Macau, sombria,

Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia

Desses hinos que o tempo não consome.

Foi lá, nessa rocha solitária,

Que o vate desterrado e perseguido,

À pátria, ingrata, que lhe dera o olvido,

Deu eterno renome.

 

"Cantemos!" disse, e triunfou da sorte.

"Cantemos!" disse, e recordando glórias,

Sobre o mesmo teatro das vitórias,

Bardo guerreiro, levantou seus hinos.

Os desastres da pátria, a sua queda,

Temendo já no meditar profundo,

Quis dar-lhe a voz do cisne moribundo

Em seus cantos divinos.

 

E que sentidos cantos! d'Inês triste

Se ouve mais triste o derradeiro alento,

Ensinando o que pode o sentimento

Quando um seio que amou d'amores canta:

No brado heróico da guerreira tuba

O valor português soa tremendo,

E o fero Adamastor com gesto horrendo

Inda hoje o mundo espanta!

 

Mas ai! a pátria não lhe ouvia o canto!

Da pátria e do cantor findava a sorte:

Aos dois juraram perdição e morte,

E os dois juntaram na mansão funérea...

Ingratos! ao que, alçando a voz do génio

Além dos astros nos erguera um sólio,

Decretaram por louro e capitólio

O leito da miséria!

 

Ninguém o pranto lhe enxugou piedoso...

Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:

"Dai esmola a Camões, dai-lhe um abrigo!"

Dizia o triste a mendigar confuso!

Homero, Ovídio, Tasso, estranhos cisnes,

Vós, que sorvestes do infortúnio a taça,

Vinde depor as c'roas da desgraça

Aos pés do cisne luso!

 

Mas não tardava o derradeiro instante...

O raio ardente, que fulmina a rocha,

Também a flor que nela desabrocha,

Cresta, passando, coas etéreas lavas!

Que cena! enquanto ao longe a pátria exangue

Aos alfanges mouriscos dava o peito,

De mísero hospital num pobre leito,

Camões, tu expiravas!

 

Oh! quem me dera desse leito à beira

Sondar teu grande espírito nessa hora,

Por saber, quando a mágoa nos devora,

Que dor pode conter um peito humano;

Palpar teu seio, e nesse estreito espaço

Sentir a imensidade do tormento,

Combatendo-te n'alma, como o vento,

Nas ondas do Oceano!

 

 

O amor da pátria, a ingratidão dos homens,

Natércia, a glória, as ilusões passadas,

Entre as sombras da morte debuxadas,

Em teu pálido rosto já pendido;

E a pátria, oh! e a pátria que exaltaras

Nessas canções d'inspiração profunda,

Exalando contigo moribunda

Seu último gemido!

 

Expirou! como o nauta destemido,

Vendo a procela que o navio alaga,

E ouvindo em roda no bramir da vaga

D'horrenda morte o funeral presságio,

Aos entes corre que adorou na vida,

Em seguro baixel os põe a nado,

E esquecido de si morre abraçado

Aos restos do naufrágio:

 

Assim, da pátria que baixava à tumba,

Em cantos imortais salvando a pátria,

E entregando-a dos tempos à memória,

Como em gigante pedestal segura:

"Pátria querida, morreremos juntos!"

Murmurou em acento funerário,

E envolvido da pátria no sudário

Baixou à sepultura.

 

Quebrando a lousa do feral jazigo,

Portugal ressurgiu, vingando a afronta,

E inda hoje ao mundo sua glória aponta

Dos cantos de Camões no eterno brado;

Mas do vate imortal as frias cinzas

Esquecidas deixou na sepultura,

E o estrangeiro que passa, em vão procura

Seu túmulo ignorado.

 

Nenhuma pedra ou inscrição ligeira

Recorda o grã cantor... porém calemos!

Silêncio! do imortal não profanemos

Com tributos mortais a alta memória.

Camões, grande Camões; foste poeta!

Eu sei que tua sombra nos perdoa:

Que valem mausoléus antes a coroa

De tua eterna glória?

 

António Augusto Soares de Passos (Porto, 27 de Novembro de 1826 – Porto, 8 de Fevereiro de 1860) foi um poeta, expoente máximo do Ultra-Romantismo em Portugal.
postado pelo Casa dos Poetas às 20:10
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