10
Nov 08

Amadeu Baptista, poeta nascido na cidade do Porto em 1953, e membro da Associação Portuguesa de Escritores e do Pen Clube Português, é hoje em dia reconhecido como um dos melhores poetas portugueses. Publicou os seguinte slivros de poesia: As Passagens Secretas (1982), Green Man & French Horn (1985), Maçã (1986) (Prémio José Silvério de Andrade - Foz Coa Cultural, 1985), Kefiah (1988), O Sossego da Luz (1989), Desenho de Luzes (1997), Arte do Regresso (1999) (Prémio Pedro Mir –Revista Plural, na categoria de Língua Portuguesa, México, 1993), As Tentações (1999), A Sombra Iluminada (2000), A Noite Ismaelita (2000), A Construção de Nínive (2001), Paixão (2003) (Prémio Vítor Matos e Sá e Prémio Teixeira de Pascoaes, 2004), Sal Negro (2003), O Som do Vermelho - Tríptico Poético sobre pintura de Rogério Ribeiro (2003), O Claro Interior (2004), (Prémio de Poesia e Ficção de Almada, 2000), Salmo (2004), Negrume (2006), Antecedentes Criminais (Antologia Pessoal 1982-2007) (2007), Outro Domínios (2008), (Prémio Literário Florbela Espanca, 2007), O Bosque Cintilante (2008) (Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2007), Sobre as Imagens (2008) (Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica, 2008) Poemas de Caravaggio (2008) (Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire, 2007). Recentemente recebeu o Prémio Literário Edmundo Bettencourt – Cidade do Funchal, pelo original "Os Selos da Lituânia" e o Prémio Espiral Maior (Galiza/Espanha), pelo original "Açougue".

 

Este poema, que aqui colocamos em pré-publicação, é do manuscrito vencedor do Prémio Oliva Guerra / Sintra 2008, Doze Cantos do Mundo:

 

 

GOYA: A FAMÍLIA DE D. CARLOS IV (1800)

 

Assim como há o cinismo,

há uma gramática do cinismo.

 

Cada mestre usa o seu

à luz do seu compêndio,

com forças à deriva,

e consubstanciando

o alarde da pintura

 

Tomemos o exemplo

da família real,

esta ou qualquer outra.

 

Se olharmos bem os rostos

vemos o que Deus

falha no mundo

 

– as insipiências

onde a criação é um malogro.

 

Mas o cínico sou eu,

embora o Príncipe

esteja talhado para a maldade,

com o corpo a três quatro,

olhando para trás,

sem profundidade,

mas a arrogância que é própria dos príncipes.

 

O Rei é uma amálgama de sucata,

que a idade sutura

e um certo ‘ai que não dói’,

que se escuta em toda a corte,

lhe lava as mãos

na promiscuidade,

enquanto acata as ordens da Rainha.

 

Esta, ao centro do painel,

é só os braços

que mostra por contraste

com a riqueza insultuosa do vestido,

paramentado de rendas espanholas

e formas que, há muito,

exercem a lascívia

a bom recato.

 

O mais são tétricas figuras,

que uma Princesa apoia colocando a altivez

em contraponto com gente impaciente pelo almoço

e as fatias de presunto quando a tarde

os puser a caminho do curral.

 

Lamento que a pintura não faça ouvir

os ruídos da rua,

o povo com os sacos de carvão sobre os ombros

e as putas com os ombros sobre os sacos de carvão.

 

Lá fora o mundo é a mais valia

do conjunto,

sendo que tudo está lubrificado

para que se note o estupro

e seja Deus, Nosso Senhor, crucificado.

 

E o cínico sou eu.

 

Por isso, à esquerda,

onde há ponto de luz

que a sombra alcança,

olho de esguelha o universo

e quase que parece que sorrio.

 

Não é verdade.

 

A esse canto,

onde fito como posso os que estão,

sendo que os de vejo de frente

e de joelhos,

queixando-se do reumático,

apenas conjecturo

como há aberrações

que podem tudo.

 

Passei por Moncloa

a um fim de tarde,

começava Maio

e dos campos desprendia-se

o odor sereno e violento

que há na terra.

 

E vi

como os massacres são, ainda,

o pão de cada dia,

por mais ou menos cínicas

que sejam as pinturas,

ou as armas estejam prontas para o abate.

 

E o meu coração

anotou tudo:

 

- a luz, sempre vital,

o pelotão de anónimos

e as suas vítimas,

a centelha de fogo, ou água,

no olhar do condenado.

 

E, já tendo visto tudo,

quero dizer,

já tendo visto em excesso

deste excesso de vergonha

sem vergonha,

aferi o meu lugar

na tábua rasa em que vivo,

e morro,

e, sem sonhos, durmo.

 

Preciso de água forte para dessedentar

o rumo a que o desespero obriga,

pincéis de cerdas duras,

espátulas cortantes,

paletas invisíveis

onde as cores, fortíssimas, latejem.

 

Preciso de fulgores

e circunstâncias

onde uma ardência nos olhos possa ser

um sinal

de redenção,

 

enquanto o povo

é à míngua que morre

e eu, cínico sendo,

página a página leio este compêndio

que os cínicos maiores que o meu cinismo

instituíram.

 

Pudesse eu regressar a Fuendetodos,

ou fazer pintura sacra,

cheia de entorses e nervos,

com o Cristo ladeado de ladrões,

como eu estou.

 

Provavelmente,

entre a maga vestida e a desnuda,

preferiria chorar

até ao fim do mundo,

chorar

e abrir as veias:

 

para que o sangue corresse

e a pintura tomasse um outro rumo

de cores,

difusas, se possível,

repartidas.

 

Mas eis que a doença chega

e a vivacidade se esvai,

e estou cego,

e totalmente surdo

 

e sou, assim, o cínico do retrato

a conferir ao mundo o mundo retratado

e os seus caprichos,

enquanto os desastres

e a guerra submeto

nas gravuras.

 

Já nem sei o que digo,

o tempo sobrevoa-me as têmporas

e onde estive não estou,

estando sempre

algures,

mais ano para a frente ou para trás,

mais cão ou menos cão nas telas,

mais cínico ou menos cínico

entre os cínicos.

 

O Príncipe, o Rei e a Rainha:

vesti-os de cores vivas

e, contudo, é de luto que está a minha arte,

porque, por esta comitiva,

nem para a eternidade

ressuscito.

 

Mas persisto.

 

Para isso é que o cinismo

recebe do cinismo

moedas de oiro,

e posso, quando posso,

com o branco de espanha

misturar azul cerúleo,

e ao verde-bétula

juntar óxido de ferro,

para que o esplendor da luz

seja o que é, na obra:

 

– fútil, sem glória,

como é cada guerra,

embora lute sempre,

 

e não lhes dê tréguas.

 

Este é meu tempo:

tomai e bebei.

 

Este é meu tempo,

tomai e comei.

 

Por mim, como sempre, estou

cheio de fome.

 

postado pelo Casa dos Poetas às 00:08
Canção:: Bob Dylan - Mr. Tambourine Man
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