08
Nov 08

Em jeito de homenagem à cidade de Londres encontrámos dois poemas de épocas diferentes. O primeiro é de Mário Cesariny, um poeta do surrealismo português do Século XX, importante movimento do nosso país, e o segundo é de Manuel A. Domingos, jovem poeta natural de Manteigas e que lançou este verão o livro Mapa pela livrododia editores.

 

 

OS PÁSSAROS DE LONDRES

 

Os pássaros de Londres

cantam todo o inverno

como se o frio fosse

o maior aconchego

nos parques arrancados

ao trânsito automóvel

nas ruas da neve negra

sob um céu sempre duro

os pássaros de Londres

falam de esplendor

com que se ergue o estio

e a lua se derrama

por praças tão sem cor

que parecem de pano

em jardins germinando

sob mantos de gelo

como se gelo fora

o linho mais bordado

ou em casas como aquela

onde Rimbaud comeu

e dormiu e estendeu

a vida desesperada

estreita faixa amarela

espécie de paralela

entre o tudo e o nada

os pássaros de Londres

 

quando termina o dia

e o sol consegue um pouco

abraçar a cidade

à luz razante e forte

que dura dois minutos

nas árvores que surgem

subitamente imensas

no ouro verde e negro

que é sua densidade

ou nos muros sem fim

dos bairros deserdados

onde não sabes não

se vida rogo amor

algum dia erguerão

do pavimento cínzeo

algum claro limite

os pássaros de Londres

cumprem o seu dever

de cidadãos britânicos

que nunca nunca viram

os céus mediterrânicos

 

Mário Cesariny, in Poemas de Londres

 

 

 

LONDRES

 

nunca cheguei a escrever um poema sobre

a cidade ser à noite um carrossel

de luzes. nem outro sobre

a fotografia onde fiquei com ar

envergonhado. ou sobre o frio e

o passeio por Hyde Park, onde

pássaros vieram comer às tuas mãos

e eu deixei fugir alguns versos

só para te poder fotografar. ou sobre

a casa estilo vitoriano, que prometeu

ocultar todas as palavras que dissemos

um ao outro, quando ao deitar

nos encolhíamos debaixo de

vários cobertores e mesmo assim

tínhamos frio. ou o definitivo,

aquele que falaria sobre Greenwich

e o meridiano que me ensinou a importância

do tempo que sempre falta, principalmente

quando numa das pontes quis dizer amo-te,

mas havia um autocarro para

apanhar. e era já o último.

 

 

manuel a. domingos in mapa

 

 

postado pelo Casa dos Poetas às 00:26
Canção:: David Byrne - The man who loved beer
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: , ,

recital:
Olá :)
O Blogue dos Manteigas de visita a este espaço :)
Sempre a apoiar o manuel a. domingos ;)
Um GRANDE SORRISO :)
http://bloteigas.blogspot.com/
Rotiv a 8 de Novembro de 2008 às 17:36

PARCEIROS
pesquisar neste blog
 
Membros no activo
Ana Luísa Silva / Joana Simões / Ana Coreto / José Eduardo Antunes / Tiago Nené
arquivos
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

links
blogs SAPO