27
Abr 09

CASAMENTO

 

Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, peque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como «este foi difícil»

«prateou no ar dando rabanadas»

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos pela primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.

 

Adélia Prado, poetisa brasileira

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 10:31
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa:

25
Abr 09

ELE DISSE, ELA DISSE

 

Abruptamente, o odor de flores, agudo, vago, delicado,

O velho coração batendo suavemente, olhos

Frescos como uma maçã, todas as rugas idas.

Quem teria imaginado? Não ela, não ele.

 

Algo passou pelo quarto e não ficou.

‘Viste-lhe o rosto?’ disse ela. Ele disse,

‘Que dizia?’ ‘«Ido»’,

Respondeu ela, ‘Ou foi isso o que pensei que disse’.

Ele respondeu, ‘Não. «Vem,» estou certo de que foi «vem».

Chamou,’ disse ele, ‘Devíamos segui-lo. Não voltará.’

‘Espinheiro no Outono,’ disse ela, ‘Não me faças rir.

«Ido» foi a palavra, e partiu. Não sejas louco.’

 

‘Espinheiro,’ disse ele, ‘Primavera, o odor tardio de Primavera.

Tudo abre, tal como era.

Não vens comigo?’ disse ele. ‘Ainda temos

Uma oportunidade. Escuta. Cheira,’ disse ele,

‘Fomos adiados.’ Lentamente, preguiçosamente,

Ela abanou a cabeça pesada e virou-se.

‘Não espero,’ disse, ‘Não penses que o farei.’

 

O cabelo escuro à volta do rosto, os olhos ocultos.

‘Nunca,’ disse ela, ‘Já esperei demais.’

Ele respondeu, ‘Escuta. Está a chamar. É a nossa última oportunidade.’

Como comida, como chuva, como névoa. Boca aberta, coração aberto.

‘Tudo floresce,’ disse ele, ‘Como quando éramos novos.’

‘Quando éramos novos?’ perguntou ela, ‘Não me lembro.’

 

Uma centelha de oiro, um sorriso, uma voz vaga chamando

Confusamente ‘Vem,’ ‘Ido,’ ‘Vem’. Os odores mesclados

De Primavera na noite de Outono. ‘A nossa última oportunidade,’ disse ele.

E ela respondeu, ‘Aproveita-a sem mim.’

 

A. Alvarez

Poema com tradução de Manuel de Seabra.

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 08:14
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa:

23
Abr 09

 

 

O universo é uma senhora.

Conserva no seu interior a luz ainda por nascer —

A Nossa Senhora. Notre Dame

Apropriado é que Nostradamus pudesse prever o futuro —

Essa é uma função de nossa senhora.

Nós que somos as folhas do chá.

 

Jack Kerouac

in Pomes All Sizes

Tradução inédita de Tiago Nené

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 02:05
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

22
Abr 09

Entre o unicórnio e tu

O espaço de um grito

Cega procura

Do teu corpo

No interior de ti

No meu amor

Espaço entre unicórnio

E eu

 

Isabel Meyrelles

in Poesia

Edições Quasi

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 08:00
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20
Abr 09

 

CIDADE SUBJECTIVA

 

E depois existe uma cidade subjectiva

(sem casas)

e observa-se no ar

um copo de whiskey gigante, ouvem-se vizinhos furtivos

sobre a sede rígida,

e emagrecem as palavras que riscam a parede, descreve-se

a memória cautelosamente

e sazonam-se as vozes que vão escurecendo

num buraco de energia.

E faz-se silêncio e não há luz na mão.

[E o futebol não pára

(um jogador vê o segundo amarelo e volta

para o geral subjectivo)]

E por fim,

uma última corrida à tona de um semi-sono vivo,

a solidão de um golo.

Nasce então o esquecimento de uma alegria

(violoncesca)

de noite, luzes e transpiração.

 

Tiago Nené

in Polishop

(pré-publicação)

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 23:34
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No Ano Internacional da criança

Dizia aqui há dias, não sei quem,

Com sorrisos de abastança e falas de desdém

- Que fome impertinente, que gula subversiva!

E fogueiras ardem e desmascaram-se folias.

Sobre um mar negro onde a loucura é diva

Desfraldam-se guerreiras melodias.

Boiardos sublevados cospem no cadáver de Lenine

Enquanto uns comem passas de Corinto

No Palácio de Inverno há biombos de absinto

Para que a matula, por detrás, urine.

Reuni a Geral Assembleia da generalizada carência

Vós sois orgulho e gáudio de toda a nossa ciência!

Párias do Bangla Desh

Paus de Arara do Nordeste

Kampucheias peregrinos

Bantustões das podres roças

Sentam-se com um sorriso agreste

E mães mostram meninos com um ar exangue.

Depois entra o Biafra a cantar hinos

E ostentando as mãos cheias

De pistolas disparam – bang, bang –

Vestidos de cowboy, sem sapatos nem meias.

«Alto lá, esta lata está estragada!»

Grita descomposto Hamlet na televisão

Olhando a caveira do pai mal embrulhada.

Bob Dylan suspira que nos States se desterra

E pelo sim, pelo não,

Investe em acções numa fábrica de guerra.

Porco, sujo, quero-me porco!

Poderia Maiakovski ter gritado

No auge do desespero e da desdita

Porque até o modernismo se consome,

Tem a modernidade que tem a própria fome dita.

Ai Marinetti! Suspira o Duce p’ra Dannunzio,

E o Che faz tiro ao alvo nas palavras, presas numa guita,

Dos poetas de raras sensações.

E «um grande lagarto verde com olhos de pedra e água»

Vende castanhas a dez tostões

E puxa fogo aos rútilos pinhais da mágoa.

Entretanto, ò suprema das venturas,

É Natal e isso se alcança da televisão a cores

Mas um hereje desdenha das alturas

Porque adormece mal,

Porque não tem boa-vontade

De se deitar com fome

De amanhecer com dores.

E enquanto se entende a doce melodia

O Papa no fervor da pregação

Escorrega e cai com palavras ímpias

Sobre a pia.

Ai João Paulo cinquenta vezes o negaste!

Estar vivo é ferver em água benta

E tudo é um paiol ou uma veia

Que ao pulsar fatalmente rebenta.

Por isso sou um louco à margem da vida

Com os cabelos da alma desgrenhados.

Estou convosco ò miseráveis

Na vala comum dos deserdados!

E, ai de mim, que vaga fronteira!

Um instante de vida é tempo ganho à morte

Pois morrer aos quinze anos ainda é ter sorte.

Por isso Índia, efémera e vedântica

És santa e luminosa

Na cópula frenética

Mas, perdoem-me Aurobindo ou Ramdas,

- Tudo será Maya – que visão esquelética!

À folia, à tripa forra!

Viva o coito de barraca

Com os incautos a olhar

E a chafurdarem, alegremente, em caca.

Vejo tudo isto – constatação bem velha

E Van Gogh doido de amarelos

Corta uma orelha.

Olho distraído o meu umbigo

Tenho nojo da minha saciedade.

A rainha de Inglaterra perde a compostura

E masturba-se com banana madura

Inaugurando um lar para a terceira idade.

Wenn ich eine Schwalbe wäre

E um miúdo maltrapilho risca-me o carro

E eu fico de olhar turvo e com um instinto bera.

Ò portas cintilantes sobre a madrugada

Ténues vestígios sobre a fronteira da vida

Aparas da morte debruçadas sobre o nada,

Tão perto, tão perto…

Coexistem alegres comemorações sobre o corpo de um burro

E de M=mc2 um vago cheiro a esturro.

Um hipopótamo vestido de Tio Sam

Vai direito à lua todo cio.

Bandeirinhas se agitam em todas as nações

Ritmos de can-can

Alegres canções

E eu penso: A puta que os pariu!

E ardo como um incêndio

No manicómio da história

E é noite de Natal,

Alles Schlaft,

E – Tudo brilha em glória.

Num lance de teatro

Cristo foge arrependido pela porta do cavalo.

Torquemada murmura: meus irmãos!

A oposição berra: não me calo!

E um Pilatos qualquer defeca aliviado

Na bacia em que lavou as suas mãos.

- Canso-me enfim. Quero dormir sobre este pesadelo.

Um instante de repouso

E que haja aqui e agora um velho do Restelo,

Que nos incendeie ou nos roube as esperanças

E sendo das Fúrias o seguro dono,

Nos lance a sua maldição:

 

Gente sem sentido,

Ou voltais de novo a ser crianças

Ou tendes de perder, para todo o sempre, o sono!

 

Adalberto Alves

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 10:19
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa:

19
Abr 09

Grand Hotel København, 326

 

Onze horas: a tua mão adormecida marca

agora um conto de Karen Blixen

- veremos em breve essa casa cinzenta,

em Helsingør - enquanto eu ouço uma sonata

de Scarlatti tocada por Scott Ross

e sei que também isso ficarei a dever à Dinamarca.

 

Apontamentos culturais? Podem até chamar-lhes

assim, ignorando a áspera nudez da voz,

o grito comum que viemos suspender aqui.

Lá em baixo, por exemplo, os funcionários do

restaurante, terminado o serviço, abrem

a terceira garrafa de champanhe e fumam

ruidosamente, como se amanhã não existisse.

 

A questão, no fundo, é apenas esta: há momentos

em que a vida nos parece quase bela,

escolhos onde embatem as mais íntimas certezas.

 

Talvez adormeçamos lado a lado,

de costas para a morte, e haja corsários ao fundo,

um mar de gelo protegendo-nos da noite.

 

 

All you need is love 2

 

Mas não é bem assim, dir-se-á.

Vinte e seis séculos de lírica

deviam, pelo menos, provar o contrário

- na hipótese argilosa de esses

cadáveres afamados terem alguma coisa

a dizer-nos quanto ao melhor método

de atravessar ruas superpovoadas.

 

Onde eu te vi passar, meu amor,

com o lenço vermelho, os cabelos

mais curtos e as pernas que embora

tenazes herméticas te davam - por

assim dizer - um ar sofrível de corpo.

 

Não sei porque é que reparei nisso,

logo eu, logo hoje. Simples distracção da morte

- a reinvindicar uma anatomia, e paz.

 

 

Poemas de Manuel de Freitas

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 08:55
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