28
Jan 09

 

 

 

LAGARTOS

 

Eu: assim começa o poema

Eu vi ontem, sem ir muito longe, um lagarto feliz.

Claro, afirmar que vi um lagarto

e que esse lagarto é feliz são afirmações que,

apesar da sua coerência, parecem

impróprias de mim.

Tudo pode explicar-se razoavelmente

se tomarmos por indubitável a primeira

afirmação, a primeira certeza:

certamente, ontem vi um lagarto.

Com alguma indulgência, ante mim,

ante o lagarto,

alguém podia crer sem qualquer ciência

na existência de lagartos felizes,

e quanto a isso, não custa nada convencer-se

de que um de nós é o lagarto feliz que vi ontem

dentro da relva,

desde a margem,

sobre o telhado.

Pena que ontem não tive tempo

de sair desta casa sem janelas.

 

Rosario Pérez Cabaña,

in Mientras Tú Cantas

(tradução de Tiago Nené)

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 13:06
Canção:: Brian Eno - By this River
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27
Jan 09

O TEU BEIJO

 

Um dia acordo e

o teu beijo

é a neve no olhar

duma gaivota

num voo desigual

de insana rota.

 

Alexandra Malheiro

in A Urgência das Palavras

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 11:51
Canção:: The gift - 1977
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O SOL

 

Sinto como imagino que o sol se sente,

o sol buscando os seus atalhos

no interior das horas naturais, nos equilíbrios sem eixo,

sobre as sequências de imagens, errando nas biografias

sem molduras, sobre as silhuetas dos carros,

sem a fadiga de um pequeno abraço ou a mudez

premeditada de um delírio convalescente,

o sol explorando o infinito da superfície vagarosa,

contornando a água de uma lágrima, impalpável

e deslumbrante, silenciosamente no caminho dos versos.

O sol que na aurora apunhala a noite,

O sol que não permite que os céus se colem,

O sol que movimenta as transparências dos homens e mulheres,

O sol que apaga a nitidez dos detalhes inúteis,

O sol que dá corda aos pássaros e aos ruídos,

O sol poético, o sol insone, o sol-ignição-de-todas-as-cores,

O sol eterno, o sol-víbora, o sol que te estranha,

O sol que te ama,

O sol, o sol, o sol...

 

Tiago Nené

in Instalação

 

(pré-publicação, a sair em 2009)

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 11:30
Canção:: U2 - Winter
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26
Jan 09

Ontem à noite sonhei que paria cachorros

 

Ontem à noite sonhei que paria cachorros,

Cachorros teus que vendia em auto-estradas desertas.

Paria sem ventre sem estômago cheio de caprichos benzidos.

Sem maçãs vomitadas à meia-noite.

Paria cães húmidos que limpava com os teus panos sujos,

Toalhas rotas de hotéis onde nunca estivemos.

Despertei com a tua ausência tão mal sintonizada como sempre,

Como sempre repleta de café morno queimando os meus sonhos.

E fria a noite, húmida a almofada.

Não descias a mim para me abraçar,

Caminhavas com pedras nas botas,

Com a gravata atada pela cintura.

Com pulsações prenhes de areia molhada

destruías o nosso rasto.

Ladra a tua voz de novo nos espelhos, hoje.

 

Celia Léon

(tradução de Tiago Nené)

 

  

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 11:04
Canção:: Rui Reininho - Bem Bom
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24
Jan 09

O TOM

 

Está assente que a tonalidade será sinistra

Ou então tratar-se-á directamente de outra coisa

No registo lírico, elegíaco, o horror atingirá o

cúmulo metricamente (morte métrica). ou então

pela disjunção e pela suspensão.

Pelo menos se se escuta, ou se lê, até esse ponto

É conveniente atermo-nos aos géneros previstos:

evocação, imprecação, futuro perfeito: rituais.

Há assim gerações de sentimentos disponíveis de

que não sei servir-me

Estou perante as palavras descontente

Durante muito tempo nem pude acercar-me delas

Agora, ouço-as e escarro-as.

 

 

ROUBAUD, Jacques, "O tom", in Sud-Express: poesia francesa de hoje, tradução de Urbano Tavares Rodrigues,  Relógio D'Água

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 23:17
Canção:: Sitiados - Vida de Marinheiro
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22
Jan 09

Um artigo interessante no site da Sic sobre a livraria Poesia Incompleta.

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 00:17
Canção:: Adriana Calcanhoto - Vambora
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa:

21
Jan 09

O Herberto Helder tem duas

pernas e dois braços, dois olhos,

tem nariz e boca e come, vive

numa casa, espreita pelas janelas,

por vezes sai à rua, sozinho ou

acompanhado, a falar, apanha

chuva, liga a televisão, sabe onde

fica a França, lembra-se quando

era pequenino, inclusive

teve mãe e pai. É

impressionante o quanto um poeta

se pode assemelhar

às pessoas! A última vez que

falei com ele mandou-me um abraço.

                                    

valter hugo mãe

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 07:29
Canção:: U2 - Tripoli
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