07
Nov 08

Há uns dias passámos no Casa dos Poetas um poema de Nuno Júdice. Trocámos depois alguns mails com os nossos leitores e discutimos um pouco a obra deste poeta natural do Algarve. Concordo com aqueles que dizem que o Júdice faz, nas suas obras, um "irresistível apelo ao público feminino". De facto isso acontece, não sei se naturalmente ou por exigências ou conselhos editoriais. Todavia, fora daquela poesia mais romantizada ou até intelectualizada que menos nos agrada (em que o expoente disto é o blogue do próprio Nuno Júdice), há poemas do autor que fazem dele, em nossa opinião, um excelente poeta. Na Casa dos Poetas seleccionámos dois poemas do livro Geometria Variável que espelham, segundo cremos, o que acabámos de dizer:

 

 

CENA DE INVERNO

 

Parada no meio do campo, na tarde de chuva,

a mulher não avança para o meio da estrada, nem recua

para perto da casa. Apanha chuva, com a cabeça virada

para o chão, como se esperasse que a terra a engula,

ou que o céu se esqueça dela, e as nuvens se afastem.

 

Numa tarde de chuva, no meio do campo, há mulheres

que não sabem para onde ir; e entre a casa e a estrada

ficam paradas, ouvindo o ruído da chuva, e pensando

na vida que as levou para o meio do campo, indecisas

entre a terra e o céu, enquanto a chuva não pára.

 

Ao ver a mulher parada no meio do campo, pensei

em chamá-la, para que saísse de dentro da lama; mas

continuei o meu caminho, como se ela não existisse,

sabendo que se parasse ao lado dela também eu olharia

para o chão, até que a terra me engolisse.

 

 

IMAGEM DO MUNDO

 

Vejo o mundo. E ao ver as coisas do mundo,

com a sua realidade própria, vejo também

a diversidade que existe em cada coisa,

distinguindo-a, múltipla ou plural.

como se diz. No entanto, o que eu vejo

é sempre igual ao que eu penso

que o mundo é; e tudo se torna

semelhante, dentro deste mundo que é

o meu, e é sempre diferente do mundo que

existe no pensamento de outro. É por isso

que não penso nas coisas do mundo como

se fossem minhas; e que o deixo para os outros,

para que eles façam o mundo como quiserem,

para que seja diferente do meu, quando o

olho, e o que vejo me restitui o mundo

como eu o quero, diferente do mundo que

os outros pensam.

 

 

Nuno Júdice

Geometria Variável

Publicações Dom Quixote

Lisboa Abril 2005

 

 

 

postado pelo Casa dos Poetas às 14:00
Canção:: Bob Geldof - Great Song of Indifference
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: , ,

recital:
Olá
Vim cá para retribuir a visita que fez ao meu blogue e aproveito para dizer que o seu é um dos meus preferidos, no que se refere à literatura, em geral, e à poesia, em particular.
Keep the good work
Paula Patricio a 7 de Novembro de 2008 às 21:23

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