17
Out 08

A INFÂNCIA DE HERBERTO HELDER

 

No princípio era a ilha

embora se diga

o espírito de Deus

abraçava as águas

 

Nesse tempo

estendia-me na terra

para olhar as estrelas

e não pensava

que esses corpos de fogo

pudessem ser perigosos

 

Nesse tempo

marcava a latitude das estrelas

ordenando berlindes

sobre a erva

 

Não sabia que todo o poema

é um tumulto

que pode abalar

a ordem do universo agora

acredito

 

Eu era quase um anjo

e escrevia relatórios

precisos

acerca do silêncio

 

Nesse tempo

ainda era possível

encontrar Deus

pelos baldios

 

Isto foi antes

de aprender a álgebra

 

 

 

A ÚLTIMA CORRIDA

 

Era um rapaz que partiu

para conhecer o medo

o seu coração arranhado pelas chamas

tropeções de um cego que foge da aldeia

nessa noite

quem conseguiria contar

 

de comboio em pensamento seguiu para Bréscia

a última corrida de aeroplanos do século

andava à roda de trinta mil libras

e ele queria muito voar sozinho

sobre florestas

 

ninguém soube mas a sua vida

vista daquele aeroplano maravilhara-o

chegariam os nevões é verdade

novas e novas sombras sobre a terra

mas a sua vida vista do aeroplano era tão grande

como nenhuma outra coisa que conheceu

 

cá em baixo diziam:

«o seu voo prolonga-se sobre cada floresta

e desaparece

nós vemos as florestas

mas não o vemos a ele»

 

 

O SILÊNCIO

 

Regressamos a uma terra misteriosa

trazemos uma ferida

e o corpo ferido

imprevistamente nos volta

para margens mais remotas

 

Giorgio Armani tinha declarado

àquele jornal inglês: «o luxo desagrada-me,

é anti-democrático.

Quero agora homenagear os operários de todo o mundo»

Eu só pensava em São João da Cruz

enquanto ouvia pela enésima vez:

«a moda substituiu o luxo

pela elegância»

 

João da Cruz fala de coroas,

resplendores, casulas

véus de seda, relicários de ouro e

diamantes

 

para lá do jogo das nossas defesas

qualquer coisa interior

a intensa solidão das tempestades

os campos alagados,

os sítios sem resposta

 

o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços

 

 

José Tolentino Mendonça, nasceu na Ilha da Madeira em 1965. É formado em Teologia. Poeta e tradutor. Poesia publicada:

 

·         Os Dias Contados, (posfácio de João Miguel Fernandes Jorge), Funchal, Ed. SREC, 1990.

·         Longe não sabia, Lisboa, Ed. Presença, 1997.

·         A que distância deixaste o coração, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998.

·         Baldios, Lisboa, Ed. Assírio & Alvim, 1999.

·         De Igual para Igual, (posfácio de Eugénio de Andrade), Lisboa, Ed. Assírio & Alvim, 2001.

·         A Estrada Branca, Lisboa, Ed. Assiro & Alvim, 2005.

·         Tábuas de Pedra (poemas para imagens de Ilda David’), Lisboa, Ed. Assírio & Alvim, 2005.

·         A noite abre meus olhos (posfácio de Silvina Rodrigues Lopes), Lisboa, Ed. Assírio & Alvim, 2006.

 

 

postado pelo Casa dos Poetas às 20:02
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