29
Set 11

CONOSCENZA

 

{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semêntica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.

 

Sylvia Beirute

in Uma Prática para Desconserto

postado pelo Casa dos Poetas às 17:10
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa:

10
Jun 10

Não me inquieto

quando não recebo as respostas

das perguntas que não fiz.

Eu me conformei

em reservar alguma coisa

de ti para saber depois.

Um pouco de nosso amor

será póstumo.

É recomendável

não descobrir todos os segredos.

 

Fabrício Carpinejar

postado pelo Casa dos Poetas às 00:33
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa:

25
Ago 09

 

GRITAR

Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam

Demasiado baixo

Fiz retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhes destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.


Paul Éluard, in "Algumas das palavras" dom quixote, 1977
trad. António Ramos Rosa e Luisa Neto Jorge

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 18:11
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

26
Jun 09

 

 

O TERRAMOTO

 

[a uma pessoa intemporal]

 

querida joana, o terramoto apanhou pessoas que faziam amor,

pessoas que morriam de uma causa lenta e dolorosa,

pessoas que celebravam contratos com apertos de mão,

pessoas com instrumentos na terra fértil,

pessoas que faziam de conta, pessoas sem relógio.

os que faziam amor perpetuaram-no, os que morriam

viram a sua morte impedida por uma colectiva e mais bem aceite,

os que celebravam contratos perderam as mãos coladas,

os que trabalhavam na terra fértil foram soterrados,

os que faziam de conta procuraram cumprir uma promessa,

os que não tinham relógio escaparam ao tempo.

meu amor, sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem,

sermos intensos é não respeitar causas e efeitos,

espero-te no meu futuro, ainda que ele não seja

o efeito directo de um presente que ainda treme muito.

 

Tiago Nené

in Polishop

(em preparação)

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 17:10
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

28
Mai 09

Hugo Milhanas Machado é um caso de sucesso na poesia portuguesa contemporânea. Já passava das duas da manhã do dia vinte e cinco quando chegou à Casa dos Poetas, vindo directamente de Salamanca, onde reside Respondeu a algumas questões de Tiago Nené e desapareceu num poema. Nunca mais o vimos.

 

 

 

 

Tiago Nené - Como descreves a evolução entre Clave do Mundo e Mas que Hei-de?

 

Hugo Milhanas Machado - Retocam-se, sobretudo, determinados processos formais, muito concretamente no que respeita ao poema homónimo, Mas que hei-de.  Ao livro com este título, assiste, como sabes, o poema inicialmente incluído em Masquerade e depois revisto para Clave do Mundo (já então com o título actual): uma jornada de ensaio jazz, como apontou o Henrique Manuel Bento Fialho na única crítica ao livro de que tenho notícia, e que aproveito para agradecer. Apeteceu entretanto resolver a fonia que por ali andava (de “masquerade” a “mas que hei-de”) e então publicar uma versão definitiva e autónoma do texto – o que aliás corresponde ao plano inicial: as secções “Amurada” e “Os Grandes Guerreiros” juntaram-se a “Masquerade” em instância posterior, e assim ficaram. Dizer apenas que este Mas que hei-de está ainda por editar. Antes dele virá mesmo, já em Julho, Entre o Malandro e o Trágico, pela Sombra do Amor, integrando poemas que, na sua maioria, poderiam ter sido incluídos em Clave.

 

Cito a nota composta há mais de um ano para este Mas que hei-de, portanto inédita, em vista de alimentar algum eventual interesse genealógico:    

 

“Do poema agora publicado foram já impressas uma primeira versão, em Masquerade (2006), sob título homónimo, e uma segunda, no ano seguinte, incluída no poemário Clave do Mundo”.

 

“Este é o poema definitivo, desmanchada a palavra de que apenas tinha a melodia. Ainda que resista em pensá-lo como um quarto livro: se começou onde começou, se fecha aqui e assim. Canto de qualquer maneira, e acabo com um sentido, e isto é de Pessoa.”



 

TN - Costumam perguntar-me como concilio a advocacia com a poesia. No teu caso tens a docência de Literatura Portuguesa em Salamanca, o baixo eléctrico e a poesia. Como se administra tudo isso?

 

HMM - A obrigação docente impera, como está bem de ver, e devo dizer que com grande gosto. A obrigação de conviver criticamente com textos, se tensa, é também muito gratificante. E, sobretudo, o trabalho com os alunos. Mas a semana ainda é grande, e tende a sobejar um par de horas entre o jantar e a dormida, que normalmente dedico a leituras não-académicas e a escritura que toque. Por ora ando em Nuno Bragança e corrijo poemas de um conjunto intitulado Roupas Beras, que farei por publicar ainda este ano. Quando possível, então, um ou outro ensaio com o meu amigo Philip Jenkins – temos devagarinho uma banda, The Lisbons – e os treinos com a rapaziada do andebol. (Aproveito para confessar que muitos versos devo-os a uma ou outra impressão destes exercícios de movimento defensivo basculante, cruzamentos lateral/ponta, etc.)

 



TN - Qual a importância de teres ganho o Prémio José Luís Peixoto? Que te motiva nos prémios literários?

 

HMM - Terão a sua importância, mais ou menos significativa, mas a participação nestes prémios tenho-a, digamo-lo, como forma de partir pedra, como estímulo. Jogar textos, esperar reações e atritos, e, naturalmente, alguma eventual publicação. Mas o que realmente me interessa são os livros.  

 



TN - Como vês o panorama geral da poesia portuguesa, principalmente no que concerne aos novos autores?

 

HMM - Creio que ainda vamos gerindo a dificuldade de escrever à sombra de um século tão poderoso como o cessante – e basta atentar em discursos de alguma dessa nova poesia tão devedores de lições sobretudo sessentistas e setentistas para ver do vigor ainda em marcha. Julgo, no entanto, que no que respeita a novos autores  - a propostas inclinadas ao novo - se poderão identificar constelações muito interessantes, de certa forma consolidadas em si mesmas, em círculos como os de Faro, Lisboa-Santarém, e Porto, por exemplo. Faz falta uma geração de crítica que se volte para estas novas propostas – a bem dizer, que esta poesia se atice no discurso crítico e se escapem a certos modismos ou hypes mais ou menos consentidos. Há muito boa poesia por aí, e também uma crítica valente, ainda em formação. Menciono a título de exemplo a minha amiga Emília Pinto de Almeida, que sabe muitíssimo de poesia. 



TN - Haverá na realidade uma "novíssima poesia portuguesa". Como a descreves? Sentes-te parte dela?

 

HMM - Existem muitos novos poetas, grande parte deles publicados, muitos agregados também em torno de revistas e, claro, a imensidão de aventuras cibernéticas. Está bem de ver que a bitola de potência é ampla, mas creio que não me compete ajuizar sobre malta, muita dela, da minha idade. Tenho gostos, e, molhando o pé, devo dizer que tenho lido com especial interesse alguns poemas, por exemplo, da Ana Salomé, do Luís Filipe Cristóvão, do Rui Almeida...

 

Não creio, contudo, que seja apropriado sondar esta paisagem de autores em clave generacional, a não ser no que respeita a certas constelações a que atrás aludi, de certa forma identificadas com colectivos, editoras, revistas ou circuitos, e nesse sentido somos todos novos: a rapaziada da Criatura, do Texto-al - Grupo Literário do Algarve, do Sulscrito (muito bem inclinado à raia espanhola), ou, jogando para casa, na Cooperativa Literária.

 

O Henrique Manuel Bento Fialho dizia no texto que atrás mencionei que não me cabe “o estatuto de novíssimo”, e eu alinho. Estando igualmente algo distante do coração dos discursos legitimadores do “novíssimo”, não me cumpre mais que o compromisso íntimo depositado na palavra, como malha donde ver o mundo. 

 

A Casa dos Poetas 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 21:05
Canção:: Sweet Talk - The Killers
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa: ,

25
Mai 09

 

 

LISBOA

 

De Lisboa recordo os jardins

sonolentos, as ruas tortuosas

do bairro de Alfama e a luz

secreta das tardes junto ao cais

onde juntos bebemos os movimentos da água.

E recordo as noites sem penumbra,

o mar azul, a rota dos comboios

que perdemos naquele junho radiante

e luminoso.

Hoje escuto o seu eco

enquanto a névoa flutua nas colinas

e rangem de saudade os carris,

a hera, os postigos e os fundos

de água entre sereias desaparecidas.

Não sei se o recordo ou somento esqueço

o peso intransitável das sombras.

Pois ainda que o tempo arraste para o nada

a juventude, a felicidade, os tesouros,

ainda que não volte jamais o paraíso,

será sempre primavera em Lisboa:

é que não vejo na memória nem nos seus mapas

esse ónus obscuro do regresso.

 

Sara Gutiérrez Caballero

Tradução de Tiago Nené

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 00:03
Poesia e Alguns dos Poetas da Casa:

20
Mai 09

Se o teu olho é simples, todo o teu corpo será luminoso

 

Começa por atentar ao que se passa entre a urze e as abelhas

à doce árvore entre a terra e o céu.

Sobe às alturas das pedras nuas,

estão difíceis estes modernos tempos para a contemplação,

na rarefacção dos lugares teofânicos.

Toma nos lugares mais baixos a beleza

de uma azeitona no silêncio do meio-dia estival.

Contemplações insignificantes

contemplações mais magnificentes.

Depois deves numerá-las: a cerimónia.

Para que germinem no teu vaso de ouro

e sobre elas desça o orvalho e o perfume dos cedros.

 

Adelino Ínsua

 

 

 

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postado pelo Casa dos Poetas às 10:37
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